toxicomania e pulsao

TOXICOMANIA E PULSÃO

Anna Luiza Dantas Salim 1

Elza Ferreira Santos 2

 

RESUMO

 

Este artigo discorre sobre o funcionamento pulsional nas toxicomanias. A toxicomania é um modo de existir em que a droga se torna central, funcionando como objeto privilegiado da pulsão. Por esse motivo, ela pode ser considerada uma das expressões mais claras da pulsão de morte desfusionada, conquanto não configure uma compulsão à repetição. O toxicômano, prescindindo da relação com os outros, manipula quimicamente as fontes pulsionais com o tóxico, regredindo ao autoerotismo.

PALAVRAS-CHAVE: Toxicomania; Pulsão; Droga; Pulsão de Morte.

INTRODUÇÃO

Este artigo pretende abordar o funcionamento pulsional na toxicomania. A toxicomania tem por irredutível especificidade o fato da droga possuir um efeito farmacológico direto sobre o corpo, fator químico que tem um papel relevante na evolução da relação sujeito-objeto. Devido à centralidade assumida pelo corpo na toxicomania, será utilizado o conceito de pulsão para compreender esse fenômeno. Na perspectiva psicanalítica, o conceito de pulsão é responsável por estabelecer a correlação entre o somático e o psíquico, configurando-se na base para compreender o corpo em sua erogeneidade.

A escolha do termo toxicomania para intitular o trabalho vincula-se ao entendimento de que nesse tipo específico de relação com a droga, esta, enquanto substância tóxica, exerce o papel de ofuscar a realidade psíquica e de anestesiar a dor, produzindo uma mania artificial. Na toxicomania, a droga se torna um objeto privilegiado de satisfação pulsional em detrimento dos demais. O vocábulo drogadicção é, por vezes, utilizado como sinônimo de toxicomania, embora os campos semânticos destes termos não se recubram totalmente.

O termo drogadicção destaca a dimensão da subserviência ao objeto, abarcada pelo vocábulo adicção cujo significado advém de adictu, o sujeito que era escravizado por dívidas na Roma Antiga (GURFINKEL, 2011). Elegeu-se o termo toxicomania, ao invés de drogadicção, devido ao entendimento de que a subserviência aos objetos não é exclusiva das adicções e nem consiste na característica fundamental da toxicomania. Cabe ressaltar que a toxicomania é aqui referida englobando não somente as drogas ilegais, mas também o álcool e toda substância psicoativa. Assim, procedeu-se a fim de enfatizar a posição subjetiva em relação à droga sem, contudo, ignorar a influência que legalidade e aceitação social de uma droga exercem no gozo do objeto, fatores que não entraram no escopo deste trabalho (LE POULICHET, 1993).

EM TORNO DA TOXICOMANIA

 

A toxicomania é um modo de existir em que a droga ganha um estatuto de centralidade. Freud, mediante a observação das distintas reações em relação à cocaína, propôs de forma revolucionária que o cerne explicativo das adicções não estaria na farmacologia, mas nas idiossincrasias do sujeito. O que determina uma adicção não é o efeito neuroquímico per se, mas a experiência subjetiva deste  efeito. Ou seja, o que é decisivo para a relação que o sujeito estabelece com a droga é o modo como esta é representada. Não é todo usuário de drogas que se torna adicto, até quando se trata de usuários de drogas alçadas a objetos malignos pelo imaginário social, como o crack (GURFINKEL, 2011).

A adicção ocorre quando há uma inversão dos lugares de sujeito e de objeto ao longo da história de uso, e, portanto, pode haver tantos objetos de adicção quanto há objetos para a pulsão. O entendimento da droga como phármakon também contribui com a argumentação de que o essencial na toxicomania não está nem na frequência nem na quantidade da substância usada, mas sim na posição subjetiva assumida. O conceito de phármakon ilustra o caráter dúbio de qualquer droga, isto é, de um agente químico externo que altera em algum ponto a fisiologia do organismo. A mesma droga pode constituir um remédio, ou um veneno dependendo dos usos de que dela são feitos. Cabe, então, diferenciar habituês, usuários ocasionais e drogadictos uma vez que tal distinção é esmaecida no que concerne às drogas, as quais são usualmente tratadas como objetos malignos (GURFINKEL, 2011; TIBURI & DIAS, 2013).

Freud (1950/2006), afirma na carta 79 dirigida a Fliess em 1897, que a toxicomania é a sucedânea da masturbação infantil, consistindo num retorno à satisfação autoerótica. Inclusive, o autor considera a masturbação o primeiro dos vícios. Tal afirmação estabelece um elo entre a adicção e atos de ordem da impulsiva O autoerotismo dos adictos e dos onanistas é, num primeiro momento, muito cômodo, pois a satisfação que obtêm prescinde do outro, aparecendo de forma imediata e conferindo a ilusão de autossuficiência. Contudo, esta modalidade de satisfação afasta o sujeito do mundo externo e da realidade psíquica, promovendo um fechamento no circuito autoerótico. Tal fechamento se manifesta, por exemplo, no isolamento social do adicto e nas dificuldades de elaboração em análise, devido ao empobrecimento da fantasia (GURFINKEL, 2011; LE POULICHET, 1993; MARCONI, 2009).

O primeiro tempo na relação com a droga obedece ao regime do princípio do prazer de uma forma radical, procurando, inclusive, subtrair-se o princípio de realidade, porquanto busca, através de um artifício, obter o prazer que a prudência do princípio de realidade ou o sadismo de um supereu severo não permitiriam. É vivenciada uma fase cor-de-rosa, como a denomina Sissa (2001) com um objeto que fornece um prazer intenso e faz esquecer as agruras da incompletude humana, propiciando um estado nirvânico onde antes havia tensão. Logo, desavisadamente, a droga se transforma de poção mágica em imperativo que tiraniza o sujeito, anulando-o. A droga se torna o mínimo existencial sem o qual o sujeito nada pode fazer (BIRMAN, 2005; SISSA, 1999; TIBURI& DIAS, 2013).

O fenômeno da tolerância que consiste na falência da gratificação inicialmente associada ao uso, além de ser uma questão química, se relaciona com a reversão da lógica de apoio pulsional que caracteriza o fenômeno da neonecessidade, no qual ocorre a biologização da pulsão. A toxicomania é um fenômeno que traveste o desejo de necessidade, circunscrevendo a polimorfia dos objetos da pulsão ao tóxico, que passa a ser uma questão de sobrevivência, geradora de uma neonecessidade tirânica (GURFINKEL, 2011). Dito de outra forma, “Não há amor, dinheiro ou saber que seja suficiente: tudo pode ser negociado por um gole ou um pico” (CRUZ, 2003, P.21). Percebe-se a reversão da lógica de apoio: a pulsão sexual que fomentou o desejo de “dar um trago” transforma-se no imperativo de uma pulsão de autoconservação do “preciso beber”. O delirium tremens atesta a função que passa a ter a droga de estabelecer um mínimo existencial, ficando, no limite, sem efeito (FREUD, 1911/2006; SISSA, 1999).

A toxicomania consiste em uma das expressões mais claras da pulsão de morte em seu vagar, desfusionada, configurando uma conduta impulsiva, em que a função de descarga é privilegiada, dando relevância ao fator atual em detrimento da causalidade simbólica. O enfraquecimento simbólico aparece na passagem ao ato e nas dificuldades de histericização do discurso, características que aproximam o sujeito da ordem do real e colocam o fenômeno da toxicomania como um desafio para a clínica psicanalítica. Por isso, como ressaltam Silva & Cremasco (2010), é necessário fazer o sujeito do desejo reaparecer na fala. Cabe interrogarmos: que excesso é esse que tiranicamente demanda ação? (KALINA & KAVIDLOFF, 1976; TIBURI & DIAS, 2013).

Le Poulichet (1993) afirma que a droga não é o verdadeiro tóxico, já que ela apenas modifica o modo de funcionamento de uma estrutura. Para a compreensão de um caso de toxicomania o que deve ser buscado é a função que a droga exerce na economia libidinal do sujeito, tendo em vista o fato indicado por Freud (1898/2006), de que não adianta um tratamento que meramente retire a substância sem saber qual o problema primário a que a droga responde e que a ela subjaz.

A droga pode ser entendida como uma defesa maníaca contra estados depressivos, caracterizados pela dor e pelo sentimento de impotência. A mania é a negação da realidade psíquica marcada pela suspensão das inibições do Eu. Muitas drogas simulam o estado de mania por terem efeitos euforizantes, havendo muitas analogias entre o ciclo aditivo e o ciclo maníaco-depressivo. Tais analogias  justificam o uso de outro termo, farmacotimia, sendo que o sufixo – timos – se refere à problemática do humor, que seria o problema originário em muitos casos de toxicomania. O fenômeno aditivo foi ainda denominado de solução aditiva constituindo uma tentativa de cura de uma gama variada de estados psíquicos sentidos como ameaçadores (BIRMAN, 2005; CRUZ, 2003; GURFINKEL, 2011; SOLER, 2007).

Como sublinha Zafiropoulos (1994), “o toxicômano não existe” (citado por RIBEIRO, 2003, p.16). E não existe mesmo uma categoria que possa englobar a multiplicidade de motivos que levam e mantêm o sujeito nas drogas. As funções que o objeto droga assume aludem aos acidentes históricos que colaboram na construção do singular, o bibelô de época de uma subjetividade, que é seu desejo. O que ocorre com as toxicomanias é o paradoxo da unidade na diversidade (GURFINKEL, 2011; LACAN, 1960/1998).

O FUNCIONAMENTO PULSIONAL E A TOXICOMANIA

 

A pulsão consiste num estímulo endógeno advindo do corpo e direcionado ao psiquismo, e que se diferencia, portanto, dos estímulos endógenos de ordem fisiológica. Estímulo é uma excitação que produz alguma reação ou modificação em seu receptor. A pulsão serve de causa para o trabalho contínuo do aparelho psíquico e embasa a descoberta psicanalítica da íntima ligação entre soma e psique. É composta de quatro elementos: pressão, finalidade, objeto e fonte (Freud,1915/2006). A pulsão, que se configura como um perigo do qual não se pode fugir por se interno e constante, requer que o Eu, através da ação motora, modifique continuamente o mundo externo a fim de satisfazê-la com algum objeto. Esta é sua  a finalidade: satisfazer-se.

A neonecessidade da toxicomania é embasada não somente na fisiologia, mas também no funcionamento pulsional, e, portanto, quando um toxicômano sente a fissura, o simples enclausuramento em uma clínica de reabilitação, só será eficaz enquanto durar a internação, pois a tendência ao ter alta será buscar o objeto específico, a droga, que satisfará sua pulsão. E mais uma vez, o toxicômano se encontra com o tóxico de sua preferência, numa repetição monótona que se contrapõe ao discurso corrente entre os toxicômanos “é só dessa vez”, pois as exigências da pulsão jamais cessam (FREUD, 1915/2006; 1920/2006; 1923/2006; GURFINKEL, 2011).

A aproximação do pulsional e do fisiológico no que se refere às toxicomanias pode ser ilustrada pelo conceito de fonte pulsional. A fonte pulsional é um processo somático que origina toda a demanda de trabalho ao psiquismo. Contudo, uma parte do corpo só se torna fonte pulsional, sendo então denominada de zona erógena ou borda, no processo de troca entre a criança e o Outro materno, perpassado pela linguagem, pois a mãe lê as necessidades da criança como demandas.

Dufour (2004) aponta que a dependência de heroína é muitas vezes alicerçada no ato de injetar-se. Injetar-se é criar orifícios na pele, subvertendo as bordas instituídas. Seria este ato uma tentativa de ter controle do próprio corpo gerando os próprios locais de troca? Ou seria uma tentativa de retornar ao momento em que o corpo não tinha sido tolhido no seu autoerotismo pelo significante?

[…] a consequência da brincadeira mórbida que o toxicômano faz com o corpo é a alteração da constância do ímpeto pulsional, intensificando-o a partir de sua fonte orgânica. […]O traço que havia marcado linguajeiramente aquela borda não é mais encontrado. Foi levado embora quando o corpo foi invadido pela indicação de um prazer que não precisa mais passar pelo desfiladeiro das palavras (NOGUEIRA FILHO,1999, p.33).

O toxicômano, prescindido do mundo externo e da relação com os outros para a satisfação, furtando-se, portanto, à troca, manipula quimicamente o próprio corpo, em especial as fontes pulsionais, em busca da sensação pura, fazendo suas catexias regredirem ao nível do prazer de órgão e ao autoerotismo – a cocaína se cheira, o crack se fuma e o injetar-se cria furos – o que alterará o funcionamento pulsional na direção da impulsividade e do excesso (BIRMAN, 2005; FREUD,1915/2006;1920/2006;1923/2006; SISSA, 1999;VALAS,2001).

O automatismo que parece guiar a conduta do toxicômano é passível de explicação tanto pelo caráter conservador das pulsões, que, se já conhecem uma Fissura é uma gíria cunhada pelos usuários de drogas para indicar o desejo irresistível pelo tóxico, experimentado como intensa angústia, que só arrefecerá com o consumo (TÍBURI, DIAS, 2013). caminho, o preferem para a descarga, quanto pelo prazer ofertado pela droga ser fácil no sentido que não depende das relações com os outros e com o significante. Conforme Nogueira Filho (1999, p.34) “o efeito das drogas provoca a ilusão de que o prazer não requer a passagem pelos significantes, e, assim, pode ser perene e constante”. A solução química parece aguilhoar a pulsão, pois se ela opera na fonte pulsional, o toxicômano se deparará com o terrível drama da homeostase: o corpo  se acostuma à substância (MELMAN, 1992).

O toxicômano caracteriza-se pela fidelidade ao seu objeto, a qual é denominada fixação e pode ser considerada uma perversão do funcionamento pulsional, pois a característica original da pulsão é que tenha uma acentuada indiferença em relação ao objeto, sendo este eleito de acordo com a facilidade com que promove a satisfação. Por outro lado, a indeterminação originária do objeto da pulsão aponta também para a importância da história subjetiva para traçar as coordenadas do objeto do desejo de cada um, o que é encontrado na história dos sujeitos sob a forma de padrões em suas escolhas objetais (FREUD, 1915/2006; 1920/2006; LAPLANCHE,1989). A variabilidade do objeto na pulsão a diferencia claramente do instinto, do nível biológico, o qual possui um único objeto de satisfação. A extrema plasticidade do objeto na teoria das pulsões se deve ao fato de que os objetos que promovem o escoamento da pulsão são sempre parciais, pois são substitutos do objeto a (COUTINHO JORGE, 2005). O conceito de objeto a designa um vazio, um resto nunca atendido que funda o desejo enquanto incompletude. Por isso também, toda satisfação é parcial e resta sempre uma tensão, que é aquilo que move o sujeito e caracteriza a vida (COUTINHO JORGE, 2005).

Os objetos a primordiais, dentre eles o seio e as fezes, são caracterizados pela sua ausência, pelo fato de que vão embora (COUTINHO JORGE, 2005). Em consonância a esta assertiva a droga consiste num semblante de objeto a para o toxicômano, pois a posse do produto dá a ilusão, conquanto seja efêmera, de completude. Contudo, a repetição do ato toxicomaníaco prova que a salvação da droga é um engodo, pois as sucessivas doses só indicam que algo falta e que a paz procurada através da intoxicação não pode ser encontrada por nenhuma via (ARTEIRO; QUEIROZ, 2011; MARCONI, 2009).

Outra característica que facilita a escolha do objeto pulsional, é sua potência em promover satisfação. Contudo, a pulsão é também capaz de se apegar a um objeto nocivo (SANTIAGO, 2001). É notório que o apego de um adicto a uma droga ilegal pesada o faça correr uma série de riscos e que, ainda assim, ele persevere no uso da substância sem procurar substituí-la por uma droga legalizada, mais acessível (TIBURI; DIAS, 2013). Inclusive, tal dificuldade de obtenção contribui parcialmente para o gozo na toxicomania. A droga também promove a confluência de pulsões, servindo às pulsões de vida e às pulsões de morte. Tal confluência reafirmar o caráter de pharmakon do objeto droga, de ser ao mesmo tempo o remédio e o veneno (SISSA,1999).

Após discorrer sobre os quatro elementos constitutivos da pulsão, abordaremos os três princípios de funcionamento do aparelho psíquico. Da mesma forma, dois dualismos pulsionais também serão abordados para que tenhamos uma compreensão mais acurada da toxicomania.

O primeiro dualismo pulsional marca a dicotomia entre o Eu e as pulsões de autoconservação de um lado e as pulsões sexuais, de outro. Esse dualismo representa os polos do conflito na neurose e se tornará obsoleto com a introdução do conceito de narcisismo, o qual aponta que o Eu é investido libidinalmente. No segundo dualismo pulsional, a pulsão de vida ou Eros é a força de ligação, responsável pela manutenção da vida e pela sexualidade, enquanto a pulsão de morte ou Tânatos representa o desligamento e a ruptura (FREUD,1915/2006;1920/2006).

O princípio do prazer é a primeira modalidade com que se realiza o desejo do inconsciente, seguindo o processo primário que opera na base da fantasia e da alucinação visando ao rebaixamento de tensão ou ganho de prazer o mais rápido possível, sem levar em consideração as relações com o mundo exterior. Por isso, levar a cabo o princípio do prazer em seu estado puro pode incorrer em sério risco para a vida do indivíduo. Este método primário de funcionamento psíquico se relaciona estreitamente com as pulsões sexuais.

No interesse da preservação do indivíduo, o princípio do prazer modifica-se em princípio de realidade, salvaguardando o prazer, ainda que diminuído, para depois. O método secundário de funcionamento opera através da modificação do mundo externo – mediante a ação e o seu ensaio, que é o pensamento – e é consoante com as pulsões do Eu ou de autoconservação. Este cerceamento da pulsão é gerador de mal-estar entre os neuróticos e alguns buscam na narcose uma solução mais imediata para lidar com ele. A narcose opera afrouxando o princípio de realidade, uma vez que incide nas relações entre Eu e mundo externo ao alterar a percepção, do que resulta o desaparecimento do desprazer e a geração de prazer. O toxicômano dominado pela fissura vai contra todo e qualquer bom-senso para obter a droga, agindo de forma impulsiva, subjugado pelo excesso de tensão e pelo princípio do prazer que exige descarga: eis o caráter impulsivo e irrefreável do ato toxicomaníaco (FREUD, 1911/2006; 1915/2006; 1920/2006; 1923/2006; 1930/2006; VALAS, 2001).

No caso da toxicomania, a lógica de apoio se reverte: o objeto investido pela libido se torna mais importante que as necessidades fisiológicas ordinárias. A droga é um objeto de amor, afinal de contas, que se transmutou em objeto  de necessidade. Há um ganho aqui, a saber, a obturação do desejo transformado em necessidade, hiância para a qual há um objeto feito sob medida (PIMENTA; CREMASCO; LESOURD, 2011; VALAS, 2001).

A PULSÃO DE MORTE E O ATO NA TOXICOMANIA

 

A partir do estudo dos sonhos das neuroses traumáticas, os quais não veiculam uma realização de desejo disfarçada e sim um trauma, delineiam-se os limites obscuros que transpassam o princípio do prazer. Freud retoma então o princípio do nirvana, formulado por Barbara Low³, para traduzir esta outra força pulsional que ele começa a distinguir, a qual é agente de ruptura e de destruição. Como sintetiza Lodi (2012, p. 296) “o que a vontade de destruição designa é a vontade de ir além, de recomeçar com novos custos, vontade de outra coisa”.

A pulsão de morte é uma energia que visa a algo diferente ao excesso de tensão da vida, combatendo este acúmulo libidinal que caracteriza a vida em sociedade, sentido, no mínimo, como perigo, podendo, inclusive, ser equivalente a um trauma. O princípio do nirvana leva ao extremo o programa do princípio do prazer, indo na direção de uma quietude total, análoga à morte. A realização da pulsão de morte, pulando a barreira do princípio do prazer (e o muro da linguagem), se dá por uma via mais curta, de caráter destrutivo. De um lado estariam as forças de Eros, que englobam o amor, o desejo, a sublimação e a sexualidade, e, do outro, Tânatos, enquanto vontade de destruição. As relações entre princípio do prazer e princípio do nirvana não são unívocas, sendo ora de contraposição ora de colaboração, concorrendo para o mesmo fim de combater o excesso pulsional, sentido como perigo.

Na toxicomania, o objeto droga, enquanto puro imaginário – pois a crença do sujeito de que este objeto lhe saciará é constantemente posta à prova pela ingestão de quantidades progressivamente maiores – parece ser o único capaz de baixar as tensões sentidas como insuportáveis, exemplo no qual o princípio do prazer e do nirvana convergem para o mesmo fim, promovendo a temporária completude da morte. O modelo paradigmático é o do pico: o sujeito desfalece e num estado que muito se assemelha ao êxtase, morre para o mundo exterior, podendo permanecer fitando os pés por horas. Já em uma toxicomania grave e na overdose, a decadência do corpo prova a dominância da pulsão de morte. O uso de drogas pode ainda, mesmo para o toxicômano, propiciar um estado de bem-estar resultante do fortalecimento do narcisismo e do enfraquecimento de um supereu sádico que pulsa segundo as ordens de Tânatos (DUFOUR, 2004; FREUD, 1920; 1923; 1930;

MARCONI, 2009; SANTOS& COSTA-ROSA, 2007).

Marconi (2009) destaca que o ato toxicomaníaco não é uma compulsão à repetição. É evidente que a pulsão de morte participa proeminentemente nas toxicomanias, contudo não configurando uma compulsão à repetição no sentido que Freud deu a mesma. A compulsão à repetição é conceituada como uma tentativa de dar outro significado ao trauma, de acordo com o deslizamento metonímico do desejo, ligando a um significante o seu boom pulsional. Há, onipresente, o impulso a certo estado anterior, que foi aquele do momento mítico de encontro com a droga. Tal encontro calou as angústias neuróticas, no caso de uns; já para outros, o vazio e a tristeza melancólicos. Para ambos ensinou a inaudita doçura de viver (SISSA,1999).

A significação mítica do encontro inicial com a droga ocorre por reverberar a falta estrutural do objeto a. A busca de retornar a este momento se torna o escopo da vida do toxicômano. O que ele não sabe é que para sua busca, travestida de busca pela droga, não há resposta pronta, nem objeto possível. Ele crê, de modo ambivalente, na droga como a verdadeira causa de suas atribulações e, ao mesmo tempo, como um remédio para seu mal-estar estrutural. Em decorrência do tamponamento das questões estruturais, não houve, portanto, o enfrentamento com o traumático, do qual poderia advir uma ressignificação, mas a negação da percepção desse desprazer (FREUD, 1920; SANTOS; COSTA-ROSA, 2007; SISSA,1999).

O uso repetido e ininterrupto e até mesmo a experiência da reincidência em uma toxicomania grave, na qual o sujeito, estando não somente sob o jugo da  pulsão de morte, mas sob risco de que esta pulsão atinja seu alvo, também não configuram uma compulsão à repetição, embora presentifiquem uma pronunciada atuação da pulsão de morte. A reincidência é o exemplo mais claro da repetição do ato toxicomaníaco. A reincidência consiste no retorno ao uso depois de um hiato, baseado na escolha do sujeito, motivado pelos excessos que se ligam ao uso da droga e que o sujeito não conseguiu suportar. Este desejo de parar, de barrar este excesso com todas as suas consequências pode ser entendida como uma reanimação da pulsão de vida. Contudo, a pulsão de vida que faz o sujeito retornar à vida ordinária, também o faz defrontar-se com as frustrações e os acossamentos pulsionais decorrentes. É quando tem lugar a “normalização” na vida sexual e no trabalho, conforme as ordens do supereu, que os conflitos psíquicos, antes anestesiados, reaparecem. Na reincidência, a pulsão de morte retoma as rédeas do sujeito (MELMAN,2004; SANTOS; COSTA-ROSA, 2007).

Em contraposição à metonímia a que se dirige a compulsão à repetição, a cena toxicomaníaca é marcada por um enrijecimento representacional em que o objeto droga mantém seu estatuto simultâneo de bem e mal supremo. Não ocorre elaboração e a cena toxicomaníaca se repete, ritualisticamente, em seus menores detalhes. O principal fator que estanca o deslizamento significante e uma possível elaboração nesta montagem psíquica é o afastamento do gozo fálico, mediado pela linguagem e pela sua mola mestra, o significante, e uma circunscrição ao gozo autoerótico (DUFOUR, 2004; MARCONI, 2009).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Neste artigo, a toxicomania foi definida em relação à posição subjetiva de escravidão que o sujeito assume em relação ao objeto droga. Buscamos destacar o pioneirismo de Freud em explicar a toxicomania como função, principalmente, das idiossincrasias do sujeito. A droga é entendida como pharmakon, sendo seu caráter de remédio ou veneno tributário do uso que dela é feito. A toxicomania foi relacionada à satisfação autoerótica, à fixação objetal, à reversão da lógica de apoio e à agência da pulsão de morte. Em relação ao quadro da toxicomania, a droga foi relacionada ao objeto a, sendo que apontamos a capacidade desse objeto de fazer o princípio do prazer e do nirvana confluírem.

A partir do estudo realizado, é possível afirmar que a toxicomania configura um funcionamento em que o pulsional se manifesta de forma selvagem, uma vez que as vinculações com a representação e o simbólico estão enfraquecidas e predominam os automatismos e repetições decorrentes do caráter conservador da pulsão, como se torna patente no fenômeno da reincidência. Outra asserção decorrente deste estudo é que na toxicomania, sujeito e objeto de satisfação formam um amálgama, à maneira de um instinto e o ato de drogar-se é percebido pelo toxicômano como uma real necessidade.

Um rumo interessante para futuras pesquisas é a busca de melhor compreender o caráter da repetição na toxicomania. As sofridas reincidências testemunham a dominância da pulsão de morte e são as mais conhecidas queixas em relação à adicção. As “recaídas” trazem não só o julgamento moral em relação ao uso da droga; mais perniciosamente apontam a fragilidade do Eu em relação à força das pulsões e a dificuldade do sujeito em lidar com a vida no registro do desejo e de suas inerentes frustrações.

Fonte