RAZÃO, PENSAMENTO E SOCIEDADE: REFLEXÕES A PARTIR DE JEAN BAUDRILLARD

Manoel Ribeiro de Moraes Junior   1

UEPA – Pará/ Brasil

RESUMO: Este artigo é resultado de um levantamento analítico dos conceitos pós- marxistas, pós-psicanalistas e pós-estruturalistas proposto por Jean Baudrillard. A virada epistemológica proposta por Baudrillard avança para além das categorias fixas de antropologia cunhadas na tradição filosófica, assumindo aspectos categóricos do desejo e da razão como ambiguidades predominantes nas ações humanas..

Palavras-chave: Sociedade. Humano. Desejo. Economia. Baudrillard.

ABSTRACT: This article is the result of an analysis of post- Marxist, post- psychoanalysts and poststructuralist concepts proposed by Jean Baudrillard. The epistemological turn proposed by Baudrillard goes beyond the fixed categories of anthropology, assuming categorical aspects of elan and reason as predominant ambiguities in human actions.

Keywords: Society. Human Economy. Elan. Baudrillard.

Notas Introdutórias

Jean Baudrillard é um sociólogo francês que repensa a “ação” e a “sociedade” a partir de flertes teóricos e tons de ironia desconstrutivista, procurando sempre revelar a dinâmica de criação dos signos que operam as representações sociais de forma alternativa às teorias tradicionais. Desta maneira, ele põe em xeque as antigas teorias sociais que se sustentavam a partir de um sistema tipológico restritos e sob polaridades fixas: material/ideal, objetivo/subjetivo, coletivo/individual, macro/micro. O pensamento de Baudrillard é expressão de um tempo dinâmico e plural, mas que não se aplica a desvendar a significação de uma hipotética pós-modernidade, tal como Jean-François Lyotard ou mesmo o filósofo italiano Gianni Vattimo.

Para o pensador francês, é contraproducente transformar a pós-modernidade em um sistema de interpretação ou mesmo em uma meta-narrativa, pois tal posição de pensamento evocaria para si o status de referencial do necessariamente novo – algo que a levaria ser nada mais que uma nova imagem da modernidade. Baudrillard repensa as Ciências Humanas (psicanálise, filosofia, economia, sociologia etc) focalizando o deslocamento que os objetos sofrem nos sistemas de constituição significativa, dando espaço para a primazia de um sistema de signos auto-referentes e sem ordenamentos lógico-formais.

Jean Baudrillard retoma a tradição analítica da sociedade inflacionando necessariamente a ideia e o papel social do desejo – categoria pertinentemente provocada por Jacques Lacan. Com ela, se pensará a ação, a dinâmica da economia e da política, a partir das propensões humanas ao desejo – inclusive quando o ser humano se põe a uma ação racional.

Este pensador francês também não se poupa em criticar Marx, Freud e outros analistas sociais, entendendo que estes estudavam a dinâmica humana não pelo que ela revela mas por aquilo que eles mesmos entendiam de ordenamento social. Este artigo é resultado de um levantamento analítico dos conceitos pós-marxistas, pós-psicanalistas e pós-estruturalistas proposto por Jean Baudrillard. A virada epistemológica proposta por Baudrillard avança para além das categorias fixas de antropologia, assumindo aspectos categóricos do desejo e da razão como ambiguidades predominantes nas ações humanas.

A Desfundamentação do pensamento, da ação e da sociedade.

 

Sou um dissidente da verdade. Não creio na ideia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo. Aliás, sou um fotógrafo (BAUDRILLARD, 2003).

A sedução desloca a verdade. Ela é a antítese das formas unívocas e objetivas da comunicação. A sua manifestação não pode nem mesmo ser entendida à luz da psicanálise recorrendo à distinção entre o discurso latente e o manifesto. Para a psicanálise, o discurso manifesto é sempre atraído pela vida submersa de um mundo diretor, verdadeiro mesmo que submerso. Já o discurso latente é o fio condutor do discurso manifesto, pois dele emergem as verdades abscônditas. Porém, a sedução não se origina das verdades imersas, profundas ou infra-estruturais. Ela simplesmente sobrevive às margens superficiais do sentido, do experimentado, resistindo às organizações profundas e, ainda mais, atraindo para si o poder de construção das mensagens.

A massa realiza realiza esse paradoxo de não ser um sujeito, um grupo- sujeito, mas de também não ser um objeto. Todas as tentativas para fazer dela um sujeito (real ou mítico) deparam com uma espantosa impossibilidade de tomada de consciência autônoma. Todas as tentativas para fazer dela um objeto deparam com a evidência inversa da impossibilidade de uma manipulação determinada de massas ou de uma apreensão em termos de elementos, de relações, de estruturas e de conjunto” (BAUDRILLARD, 1993, p. 30).

O conceito de sedução força Baudrillard a criticar as teorias de Sigmund Freud e de Ferdinand de Saussure. A psicanálise freudiana descarta a sedução de sua primazia: a auto- referencialidade. Pois para o psicanalista austríaco, a ilusão e a efemeridade são dependentes e originárias de seus opostos: o verdadeiro e do perene. Do mesmo modo, Saussure insistiu na lógica da substituição, postulando um sub-nível universal da linguagem: a linguística. O sentido e a ordem são forças narcisistas que o pensamento teórico busca deflagrar definitivamente no ordenamento do mundo.

Nas sociedades capitalistas, onde os signos sobrevivem cada vez mais independentes dos objetos, o real não se orienta mais sobre verdades ônticas, mas sobre paixões pelo desvio, pela sedução. O real não manifesta coisas e nem verdades, mas vontades e desejos.

Para a sedução, o desejo não é um fim, é uma aposta hipotética. Mais precisamente, a aposta é de provocação e de decepção do desejo, cuja única verdade consiste em cintilar e ser decepcionado – o próprio desejo abusando de sua potência, que só lhe é dada para lhe ser retirada. Ele nem ao menos saberá o que lhe acontece. Pois aquele ou aquela que seduz pode realmente amar ou desejar; só que mais profundamente (ou superficialmente, se se quer, no abismo superficial das aparências) um outro jogo que nenhum dos dois conhece desenrola-se e do qual os protagonistas do desejo são apenas figurantes (BAUDRILLARD, 1991, p.99).

É a partir da inversão especulativa proposta por Baudrillard, podemos entender como a psicanálise e as ciências humanas em geral são apáticas às forças da sedução. Não é por menos, mesmo críticos às suas tradições, eles ainda se mostram aliados aos ideais da metafísica platônica. Estes saberes sobre o mundo social rejeita as pulsões da sedução que habitam o convívio humano, porque eles acreditam no hinterwelt (mundo oculto) racional e distintivo. Todavia, estas teses ainda se apoiam numa convicção oculta que, insistentemente, aposta na inteireza cognitivista do ser humano.

Mas, com a derrocada do socialismo burocrático e desencantado a favor da expansão de um capitalismo sofisticado e cínico, despertou-se a compreensão de que o prazer e a euforia também são expressões da humanidade que sobrevive ávida de desejos: “tal euforia dinâmica atua como antítese das satisfações estáticas e imobiliárias da família e como parênteses na realidade social” (BAUDRILLARD, 93, 75). Nas experiências dos encontros sociais e das imagens publicitárias ou não, a sedução é descoberta como algo preponderante, mas que não pode ser representado de forma precisa, unívoca.

Ela não distingue coisas, simplesmente convida a um encontro. E este encontro não é aprofundamento, ultrapassagem ou revelação de tudo que é visível. Não há nada mais que imagens, como as do espelho: objeto que sobrevive da imagem manifesta. A incidência da sedução com o seduzido transgride a lógica do real, da vida e da morte. A sedução transcende o mundo do real.

Seduzir é fazer figuras jogar entre si, fazer jogar entre si signos roubados a sua própria armadilha. A sedução jamais é o resultado de uma força de atração dos corpos, de uma conjunção de afetos, de uma economia de desejos; é preciso que intervenha um engano e misture as imagens, é preciso que uma tirada de repente separe coisas indivisas: assim a primeira carta traz consigo a tentação irresistível de ser reescrita para outra mulher, numa espécie de funcionamento irônico autônomo cuja própria idéia é sedutora. Jogo sem fimao qual os signos se prestam espontaneamente por uma ironia sempre disponível. Talvez eles queiram ser seduzidos, talvez, mais profundamente que os homens, desejam seduzir e ser seduzidos (BAUDRILLARD, 1991, 118).

Para Baudrillard, a virada hermenêutica da razão ainda não reverencia a dinâmica relacional que as sociedades intermedeiam em suas expressões religiosas, políticas ou econômicas. Pois as relações sociais não se impõem como vontade de coisas ou manifestas em expressões portadoras de significações delimitáveis, mas simplesmente como vontades- de-si (ou vontades-em-si). Todas as Ciências Humanas insistem em conhecer a dimensão da subjetividade e da sociabilidade a partir de referenciais coisificantes ou logicamente significantes. Porém o jogo social é regrado pela vontade e ela transcende a lógica das coisas e dos sentidos unívocos.

Baudrillard anticategoriza as dimensões científicas do sentido. De modo oposto aos “pensadores guardiãs” do esclarecimento, o sociólogo francês encontra bons motivos para esta orientação investigativa: as consequências de uma (des ou neo)organização do mundo contemporâneo impulsionado pela liberação do discurso sexual e, respectivamente, a proliferação das figuras do desejo. Não é por menos, esta supervalorização do sexo e de seus signos, orientados por referências hiper-realistas do gozo, contrastam com os modelos patriarcais e masculinos de pensamento e mundo. Este estádio paradigmático da sociedade hodierna eclode a fragilização do absoluto, dos princípios unívocos e universais de referência. Portanto, o único princípio observável é o da incerteza e ele  regerá progressivamente a razão política e econômica.

Quando a economia absorve o princípio do desejo, ela passa a operacionalizar sem as restrições próprias de um sistema coerente. A economia não se guia mais pelo princípio da carência imediata, mas das infinitas possibilidades abertas pelo espectro do desejo. Segundo Baudrillard, “é o espectro do desejo que persegue a realidade defunta do sexo. O sexo está em toda a parte, exceto na sexualidade” (BAUDRILLARD, 1991, pp 9-10).

O desejo não se põe como o outro das formas fálicas do sexo, mas como alvo, como atração universal: pura sedução. A sedução tem a sua dinâmica no domínio do universo simbólico, em termos de sedução – não mais em termos de uma estrutura e de oposição distintivas mas de reversibilidade sedutora – um universo onde o femenino já não é o que se opõe ao masculino mas o que seduz o masculino(BAUDRILLARD, 1991, p. 12).

As dimensões de sexo e poder do masculino pousam sobre referências definidas e estabelecidas. A verdade não pode ser comensurada nos jogos da sedução. Pois, nas regras do poder a sedução dirige-se a realidades definidas. No entanto, quando mudada as regras dos jogos simbólicos do real, a sedução des-finaliza os objetivos do desejo.

Mas para esclarecer a temática do desejo, Baudrillard procura desvendar a presença do corpo na ação do desejo: é uma metáfora ou definitivamente o destino anatômico do desejo? O desejo é volúpia, é força que transcende às formas monolíticas da ética e da verdade. A anatomia, o corpo, tem papéis, formas e funções. Enquanto isso, o desejo, forças das seduções, opõe-se “radicalmente à anatomia como destino. Somente a sedução rompe com a sexualidade distintiva dos corpos e a inelutável economia fálica dela resultante” (BAUDRILLARD, 1991, 15). Ë desta maneira que Baudrillard critica a economia clássica e a Crítica à Economia Política de Marx. Os signos não se baseiam em infraestruturas, mas em movimentos criativos, em transcendências. A verdade é a própria aparência. “De nada serve jogar ser contra ser, verdade contra verdade; eis aí a armadilha de uma subversão dos fundamentos, quando basta uma ligeira manipulação das aparências” (BAUDRILLARD, 1991, pp. 15-16).

A expressão ligeira, aparente, do arquétipo feminino não pode deixar ser consumido em tentativas, como se recalcadas – a aí valeria o diagnóstico da psicanálise freudiana -, de substituir a profundidade do masculino: “as mulheres fariam bem em se deixar seduzir por essa verdade, pois aí reside o segredo de seu poder, que estão quase a perder, levantando a profundidade do feminino contra a do masculino” ((BAUDRILLARD, 1991, pp. 15-16). O fato feminino não é a superficialidade contra a profundidade masculina. Este antagonismo só sobrevive sob as amarras do poder masculino.

Para Baudrillard, o mundo simbólico feminino não distingue superfície e profundidade, autêntico e artificial: “o masculino é certo, o feminino é insolúvel” (BAUDRILLARD, 1991, p. 16). Deste modo, não é possível distinguir o real da simulação, no entanto, sabe-se que na insolubilidade da simulação, a sedução é a experiência fundamentalmente ambígua no que concerne ao feminino: somente ela pode ultrapassar a simulação.

A eterna ironia da comunidade

A feminidade é o princípio da incerteza e, por isso, ela suspende as distinções. No entanto, é como indeterminitude que surge a maior incerteza: a “representatividade da feminidade” (p. 17). Para melhor explorar as novas imagens do mundo da sedução, Baudrillard enfoca a dinâmica do travestismo. Nos atos do travestismo não distinção de papéis e nem de identidades sexuais. Para eles o que os atraem são os signos da sedução. Neste jogo o mais importante não é definir as formas de sedução a partir das distinções sexuais, mas sim jogar empenhados em ritualizar as seduções per se. O sexo não rege as seduções, mas é uma das situações da sedução. O objetivo da sedução não é a verdade, mas o fascínio.

Platão e toda a metafísica clássica consubstanciaram verdade e fascínio. Mas, na contemporaneidade, as duas faces não são de uma mesmo corpo. Janus morreu, e tanto a verdade como o fascínio se mostram duas pessoas completamente distintas: “fascínio perdido quando o sexo real transparece … A sedução sempre é mais singular e sublime que o sexo, e é a ela que atribuímos preço maior” ((BAUDRILLARD, 1991, p. p. 18). Deste modo, a objetividade das coisas e das relações são transubstanciadas nos signos subjacentes aos jogos da sedução. Não há mais há mais porquê considerar a velha casuística da latência sugerida pela psicanálise, “tudo se representa na vertigem dessa reversão, dessa transubstanciação do sexo nos signos, que é o segredo de toda a sedução” (BAUDRILLARD, 1991, p. 18). Desta maneira, a feminidade ela transcende o corpo e produz o desejo: a maquilagem é mais forte que as formas do corpo, o desejo transcende a imagem real.

Desta maneira podemos colocar um distintivo histórico: do passado até hoje contemplamos o poder da falocracia contra as formas atuais da sociedade revolucionada pelo desejo. Parte sim. No entanto, cabe também a tese de que o mundo patriarcal sobrevive como força de resistência à autêntica forma de sedução que move a todos os sentidos e relações. Bem, desta maneira, podemos compreender como as instituições se tornaram menos razoáveis e mais coercitivas – poder é estabelecido força vigilante, contra as silenciosas pulsões que permeiam constantemente todos os espaços da vivência: “os homens erigiram seu poder e suas instituições apenas para contrariar os poderes originais bem superiores da mulher. Não é a inveja do pênis o motor; ao contrário, é o ciúme do homem pelo poder de fecundação da mulher. Esse privilégio da mulher é imperdoável; era preciso inventar a qualquer preço uma ordem diferente, social, política e econômica masculina, onde esse privilégio natural pudesse ser diminuído” (BAUDRILLARD, 1991, p.22).

A feminidade não produz ordem de valor. Ela não é produtora, mas sedutora. Ë fraco o mito da guerra dos sexos. Ë fraco também a tese de que houve um combate na história das civilizações, para o controle sexual das sociedades. O poder dos homens sempre se estabeleceu para o controle da força que o enfraquecia: o desejo via a sedução. Por isso, era preciso a moral, a religião, o poder. No entanto, a mono-sexualidade encartada no processo de controle da sexualidade, absteve os homens das formas do gozo conciliar, conspirativo. Desta maneira, o patriarcalismo procura exonerar as mulheres das pressões e das forças de controle a partir de propagandas liberais para a garantia dos diretos individuais e de salvaguarda dos direitos sexuais. No entanto, a regência masculina não observou que as formas da sedução não seguem direitos e nem garantias constitucionais.

Simulações e Seduções

Para Baudrillard, os séculos contemporâneos são marcados pela “história violenta” dos grandes conflitos: de um lado o armamentista (duas grandes guerras) e o político- econômico (guerra fria); e, do outro, a ascensão do cinema como veículo imaginário dos mitos. Então, o que é o século XX: ápice da história erguido pelo advento do capitalismo e da tecnologia científica, a radicalização social da tecnologia industrial e o cumprimento da promessa iluminista, ou simplesmente a experimentação de uma recriação do despotismo e das narrativas lendárias?

O cotidiano é marcado pelas estratégias de mercado e de guerra. Tal como Lukacs (1989) afirmou, as experiências do imaginário comum se adequaram às formas do capital, da mercadoria e do dinheiro. Não há espaço mais simbolismos tradicionais. A concretização das relações sociais na ação da negociação (a moral do capital) e dos conflitos (a ética do reconhecimento pela guerra), expulsou do mundo da vida as narrativas simbólicas: a celebração da técnica sentenciou a vitória da mecânica sobre o mito narrativo. Porém, para sobreviver, o mito se refugia no espaço aberto pela própria tecnologia às expressões da arte: o cinema. “O mito, expulso do real pela violência da história, encontra refúgio no cinema” (BAUDRILLARD, 1991, p. 59).

O Impulso coisificante que tomou conta da ordem do agir e do pensar, o mesmo que expulsou o mito das aventuras imaginativas do dia-a-dia, fez da história a sua outra vítima. Só existe um início nostálgico quando se considerar a possibilidade de haver diferenças com o presente, só há histórias somente quando se considerar o presente social como encontro de origens diversas. História ou histórias são visões de mundo social que não se ajustam às exigências presentes de planificação, neutralização e congelamento da identidade sócio- global. Porém, onde encontrar então a narrativa outra do presente: nos mitos ou na história? Bem, independente da escolha, ambos habitam o cinema. Narrativas objetivas ou metafóricas, suspensas de seu habitat originário: o mundo da vida, agora elas sobrevivem nos ecrãs.

O esvaziando da política, da história e dos mitos, considerando as suas possibilidades espontâneas na práxis social, haja vista que elas sobrevivem em realidade virtuais: os personagens históricos, mitológicos e políticos dos cinemas e das universidades são celebrados como presentes, mas que, inconscientemente, são sabidos como mortos: um réquiem alemão (os poucos que insistem na categoria da universalidade) ao mito, à história e à política. No entanto, sendo o ser humano um ente do ser e, por isso, do sentido, ele sofre de uma agonia por causa da separação silenciosa entre o racional e o real.

Mas por que a espera pela ressurreição da história? A história é mito na sociedade de nossa época, um referencial perdido – mas necessário. É a partir dela que se constrói as expectativas salvacionistas ou catastróficas do presente, é a certeza de que o mundo traz referências originárias das quais tudo pode ser avaliado e, assim, a vida ganha um sentido linear. Mas o que é essa história, o mito moderno, num mundo não articulado mas a partir das referências. Por viver pela expectativa de um passado ordenado (ao necessariamente bom ou mal), a possibilidade aberta pelo presente é o da náusea ou da angustia: um presente aberto, infinito e sem sentido, vivendo desancorado em pleno mar. Na época presente é inútil se guiar pelos referências metafísicos do passado: verdade, bem e belo.

Na presente época não houve espaço para o vazio. A descoberta da possibilidade da facticidade do vazio provocou um trauma não consolidado. Baudrillard, para tanto, recorre à teoria do fetichismo da psicanálise freudiana. A sociedade celebra a sua imagem nas telas dos cinemas. Não interessa as construções: fascismo ou etc. O que importa é a rejeição do nada, do caos ou da confusão. A perspectiva de Baudrillard é bem calara: não interessa o sentido: o uno e a identidade sobrevivem independentemente das suas imagens. Não interessa quem é a história, Deus, a moral ou a política: o que importa é a ordenação do real. “Corra, corra que o tumulto ta formado. Vem cá vem ver, vem cá vem ver, que dentro do tumulto pode estar você”.

Segundo Fabiano Oliveira (OLIVEIRA, S/D), Conceber simulacros é imaginar a substituição do real pelos signos do real, isto é, o real não é mais referência para a produção do sentido, mas os sentidos já estão dados e se constituem no padrão aos quais os acontecimentos deverão se enquadrar. As teorias apresentadas trataram de nos esclarecer ao mesmo tempo em que causavam a perplexidade de um possível mundo ilusoriamente real que precisa ser apreendido em sua profundidade, pois dele todos participamos tanto como produtores quanto como consumidor.

A história no cinema é jogo da promessa do concreto pelo enredo simulado: a sedução não promete o real. A História é hiper-real. A simulação quanto mais convence da sua concretude, mas distante ela fica do real. O cinema e a sua trajetória: do mais fantástico ou mítico ao realístico e à hiper-realístico (BAUDRILLARD, 1993, p.64). “O cinema pode hoje colocar todo o seu talento, toda sua técnica ao serviço da reanimação daquilo que ele próprio contribuiu para liquidar. Apenas ressuscita fantasmas e aí se perde ele próprio”.

Conclusão

 

Baudrillard aprofunda os problemas (aporias) nos estudos sociais. Para o pensador, a sociedade não pode ser pensada como homóloga a uma antropologia atômica, ordenada e una. Isso seria uma compreensão ainda mitológica de sociedade. Por isso, Baudrillard lança mão de aspectos fundamentais da clássica epistemologia das ciências humanas para entender o universo da ação humana. O mundo não se faz mais num sentido que é esperado, e sua expectativa é frustrada silenciosamente porque o sentido do real-sem-sentido lhe é posto como uma grande simulação. A nossa era é a da história e da política simulada.

Fonte do Artigo

TOXICOMANIA E PULSÃO

Anna Luiza Dantas Salim 1

Elza Ferreira Santos 2

 

RESUMO

 

Este artigo discorre sobre o funcionamento pulsional nas toxicomanias. A toxicomania é um modo de existir em que a droga se torna central, funcionando como objeto privilegiado da pulsão. Por esse motivo, ela pode ser considerada uma das expressões mais claras da pulsão de morte desfusionada, conquanto não configure uma compulsão à repetição. O toxicômano, prescindindo da relação com os outros, manipula quimicamente as fontes pulsionais com o tóxico, regredindo ao autoerotismo.

PALAVRAS-CHAVE: Toxicomania; Pulsão; Droga; Pulsão de Morte.

INTRODUÇÃO

Este artigo pretende abordar o funcionamento pulsional na toxicomania. A toxicomania tem por irredutível especificidade o fato da droga possuir um efeito farmacológico direto sobre o corpo, fator químico que tem um papel relevante na evolução da relação sujeito-objeto. Devido à centralidade assumida pelo corpo na toxicomania, será utilizado o conceito de pulsão para compreender esse fenômeno. Na perspectiva psicanalítica, o conceito de pulsão é responsável por estabelecer a correlação entre o somático e o psíquico, configurando-se na base para compreender o corpo em sua erogeneidade.

A escolha do termo toxicomania para intitular o trabalho vincula-se ao entendimento de que nesse tipo específico de relação com a droga, esta, enquanto substância tóxica, exerce o papel de ofuscar a realidade psíquica e de anestesiar a dor, produzindo uma mania artificial. Na toxicomania, a droga se torna um objeto privilegiado de satisfação pulsional em detrimento dos demais. O vocábulo drogadicção é, por vezes, utilizado como sinônimo de toxicomania, embora os campos semânticos destes termos não se recubram totalmente.

O termo drogadicção destaca a dimensão da subserviência ao objeto, abarcada pelo vocábulo adicção cujo significado advém de adictu, o sujeito que era escravizado por dívidas na Roma Antiga (GURFINKEL, 2011). Elegeu-se o termo toxicomania, ao invés de drogadicção, devido ao entendimento de que a subserviência aos objetos não é exclusiva das adicções e nem consiste na característica fundamental da toxicomania. Cabe ressaltar que a toxicomania é aqui referida englobando não somente as drogas ilegais, mas também o álcool e toda substância psicoativa. Assim, procedeu-se a fim de enfatizar a posição subjetiva em relação à droga sem, contudo, ignorar a influência que legalidade e aceitação social de uma droga exercem no gozo do objeto, fatores que não entraram no escopo deste trabalho (LE POULICHET, 1993).

EM TORNO DA TOXICOMANIA

 

A toxicomania é um modo de existir em que a droga ganha um estatuto de centralidade. Freud, mediante a observação das distintas reações em relação à cocaína, propôs de forma revolucionária que o cerne explicativo das adicções não estaria na farmacologia, mas nas idiossincrasias do sujeito. O que determina uma adicção não é o efeito neuroquímico per se, mas a experiência subjetiva deste  efeito. Ou seja, o que é decisivo para a relação que o sujeito estabelece com a droga é o modo como esta é representada. Não é todo usuário de drogas que se torna adicto, até quando se trata de usuários de drogas alçadas a objetos malignos pelo imaginário social, como o crack (GURFINKEL, 2011).

A adicção ocorre quando há uma inversão dos lugares de sujeito e de objeto ao longo da história de uso, e, portanto, pode haver tantos objetos de adicção quanto há objetos para a pulsão. O entendimento da droga como phármakon também contribui com a argumentação de que o essencial na toxicomania não está nem na frequência nem na quantidade da substância usada, mas sim na posição subjetiva assumida. O conceito de phármakon ilustra o caráter dúbio de qualquer droga, isto é, de um agente químico externo que altera em algum ponto a fisiologia do organismo. A mesma droga pode constituir um remédio, ou um veneno dependendo dos usos de que dela são feitos. Cabe, então, diferenciar habituês, usuários ocasionais e drogadictos uma vez que tal distinção é esmaecida no que concerne às drogas, as quais são usualmente tratadas como objetos malignos (GURFINKEL, 2011; TIBURI & DIAS, 2013).

Freud (1950/2006), afirma na carta 79 dirigida a Fliess em 1897, que a toxicomania é a sucedânea da masturbação infantil, consistindo num retorno à satisfação autoerótica. Inclusive, o autor considera a masturbação o primeiro dos vícios. Tal afirmação estabelece um elo entre a adicção e atos de ordem da impulsiva O autoerotismo dos adictos e dos onanistas é, num primeiro momento, muito cômodo, pois a satisfação que obtêm prescinde do outro, aparecendo de forma imediata e conferindo a ilusão de autossuficiência. Contudo, esta modalidade de satisfação afasta o sujeito do mundo externo e da realidade psíquica, promovendo um fechamento no circuito autoerótico. Tal fechamento se manifesta, por exemplo, no isolamento social do adicto e nas dificuldades de elaboração em análise, devido ao empobrecimento da fantasia (GURFINKEL, 2011; LE POULICHET, 1993; MARCONI, 2009).

O primeiro tempo na relação com a droga obedece ao regime do princípio do prazer de uma forma radical, procurando, inclusive, subtrair-se o princípio de realidade, porquanto busca, através de um artifício, obter o prazer que a prudência do princípio de realidade ou o sadismo de um supereu severo não permitiriam. É vivenciada uma fase cor-de-rosa, como a denomina Sissa (2001) com um objeto que fornece um prazer intenso e faz esquecer as agruras da incompletude humana, propiciando um estado nirvânico onde antes havia tensão. Logo, desavisadamente, a droga se transforma de poção mágica em imperativo que tiraniza o sujeito, anulando-o. A droga se torna o mínimo existencial sem o qual o sujeito nada pode fazer (BIRMAN, 2005; SISSA, 1999; TIBURI& DIAS, 2013).

O fenômeno da tolerância que consiste na falência da gratificação inicialmente associada ao uso, além de ser uma questão química, se relaciona com a reversão da lógica de apoio pulsional que caracteriza o fenômeno da neonecessidade, no qual ocorre a biologização da pulsão. A toxicomania é um fenômeno que traveste o desejo de necessidade, circunscrevendo a polimorfia dos objetos da pulsão ao tóxico, que passa a ser uma questão de sobrevivência, geradora de uma neonecessidade tirânica (GURFINKEL, 2011). Dito de outra forma, “Não há amor, dinheiro ou saber que seja suficiente: tudo pode ser negociado por um gole ou um pico” (CRUZ, 2003, P.21). Percebe-se a reversão da lógica de apoio: a pulsão sexual que fomentou o desejo de “dar um trago” transforma-se no imperativo de uma pulsão de autoconservação do “preciso beber”. O delirium tremens atesta a função que passa a ter a droga de estabelecer um mínimo existencial, ficando, no limite, sem efeito (FREUD, 1911/2006; SISSA, 1999).

A toxicomania consiste em uma das expressões mais claras da pulsão de morte em seu vagar, desfusionada, configurando uma conduta impulsiva, em que a função de descarga é privilegiada, dando relevância ao fator atual em detrimento da causalidade simbólica. O enfraquecimento simbólico aparece na passagem ao ato e nas dificuldades de histericização do discurso, características que aproximam o sujeito da ordem do real e colocam o fenômeno da toxicomania como um desafio para a clínica psicanalítica. Por isso, como ressaltam Silva & Cremasco (2010), é necessário fazer o sujeito do desejo reaparecer na fala. Cabe interrogarmos: que excesso é esse que tiranicamente demanda ação? (KALINA & KAVIDLOFF, 1976; TIBURI & DIAS, 2013).

Le Poulichet (1993) afirma que a droga não é o verdadeiro tóxico, já que ela apenas modifica o modo de funcionamento de uma estrutura. Para a compreensão de um caso de toxicomania o que deve ser buscado é a função que a droga exerce na economia libidinal do sujeito, tendo em vista o fato indicado por Freud (1898/2006), de que não adianta um tratamento que meramente retire a substância sem saber qual o problema primário a que a droga responde e que a ela subjaz.

A droga pode ser entendida como uma defesa maníaca contra estados depressivos, caracterizados pela dor e pelo sentimento de impotência. A mania é a negação da realidade psíquica marcada pela suspensão das inibições do Eu. Muitas drogas simulam o estado de mania por terem efeitos euforizantes, havendo muitas analogias entre o ciclo aditivo e o ciclo maníaco-depressivo. Tais analogias  justificam o uso de outro termo, farmacotimia, sendo que o sufixo – timos – se refere à problemática do humor, que seria o problema originário em muitos casos de toxicomania. O fenômeno aditivo foi ainda denominado de solução aditiva constituindo uma tentativa de cura de uma gama variada de estados psíquicos sentidos como ameaçadores (BIRMAN, 2005; CRUZ, 2003; GURFINKEL, 2011; SOLER, 2007).

Como sublinha Zafiropoulos (1994), “o toxicômano não existe” (citado por RIBEIRO, 2003, p.16). E não existe mesmo uma categoria que possa englobar a multiplicidade de motivos que levam e mantêm o sujeito nas drogas. As funções que o objeto droga assume aludem aos acidentes históricos que colaboram na construção do singular, o bibelô de época de uma subjetividade, que é seu desejo. O que ocorre com as toxicomanias é o paradoxo da unidade na diversidade (GURFINKEL, 2011; LACAN, 1960/1998).

O FUNCIONAMENTO PULSIONAL E A TOXICOMANIA

 

A pulsão consiste num estímulo endógeno advindo do corpo e direcionado ao psiquismo, e que se diferencia, portanto, dos estímulos endógenos de ordem fisiológica. Estímulo é uma excitação que produz alguma reação ou modificação em seu receptor. A pulsão serve de causa para o trabalho contínuo do aparelho psíquico e embasa a descoberta psicanalítica da íntima ligação entre soma e psique. É composta de quatro elementos: pressão, finalidade, objeto e fonte (Freud,1915/2006). A pulsão, que se configura como um perigo do qual não se pode fugir por se interno e constante, requer que o Eu, através da ação motora, modifique continuamente o mundo externo a fim de satisfazê-la com algum objeto. Esta é sua  a finalidade: satisfazer-se.

A neonecessidade da toxicomania é embasada não somente na fisiologia, mas também no funcionamento pulsional, e, portanto, quando um toxicômano sente a fissura, o simples enclausuramento em uma clínica de reabilitação, só será eficaz enquanto durar a internação, pois a tendência ao ter alta será buscar o objeto específico, a droga, que satisfará sua pulsão. E mais uma vez, o toxicômano se encontra com o tóxico de sua preferência, numa repetição monótona que se contrapõe ao discurso corrente entre os toxicômanos “é só dessa vez”, pois as exigências da pulsão jamais cessam (FREUD, 1915/2006; 1920/2006; 1923/2006; GURFINKEL, 2011).

A aproximação do pulsional e do fisiológico no que se refere às toxicomanias pode ser ilustrada pelo conceito de fonte pulsional. A fonte pulsional é um processo somático que origina toda a demanda de trabalho ao psiquismo. Contudo, uma parte do corpo só se torna fonte pulsional, sendo então denominada de zona erógena ou borda, no processo de troca entre a criança e o Outro materno, perpassado pela linguagem, pois a mãe lê as necessidades da criança como demandas.

Dufour (2004) aponta que a dependência de heroína é muitas vezes alicerçada no ato de injetar-se. Injetar-se é criar orifícios na pele, subvertendo as bordas instituídas. Seria este ato uma tentativa de ter controle do próprio corpo gerando os próprios locais de troca? Ou seria uma tentativa de retornar ao momento em que o corpo não tinha sido tolhido no seu autoerotismo pelo significante?

[…] a consequência da brincadeira mórbida que o toxicômano faz com o corpo é a alteração da constância do ímpeto pulsional, intensificando-o a partir de sua fonte orgânica. […]O traço que havia marcado linguajeiramente aquela borda não é mais encontrado. Foi levado embora quando o corpo foi invadido pela indicação de um prazer que não precisa mais passar pelo desfiladeiro das palavras (NOGUEIRA FILHO,1999, p.33).

O toxicômano, prescindido do mundo externo e da relação com os outros para a satisfação, furtando-se, portanto, à troca, manipula quimicamente o próprio corpo, em especial as fontes pulsionais, em busca da sensação pura, fazendo suas catexias regredirem ao nível do prazer de órgão e ao autoerotismo – a cocaína se cheira, o crack se fuma e o injetar-se cria furos – o que alterará o funcionamento pulsional na direção da impulsividade e do excesso (BIRMAN, 2005; FREUD,1915/2006;1920/2006;1923/2006; SISSA, 1999;VALAS,2001).

O automatismo que parece guiar a conduta do toxicômano é passível de explicação tanto pelo caráter conservador das pulsões, que, se já conhecem uma Fissura é uma gíria cunhada pelos usuários de drogas para indicar o desejo irresistível pelo tóxico, experimentado como intensa angústia, que só arrefecerá com o consumo (TÍBURI, DIAS, 2013). caminho, o preferem para a descarga, quanto pelo prazer ofertado pela droga ser fácil no sentido que não depende das relações com os outros e com o significante. Conforme Nogueira Filho (1999, p.34) “o efeito das drogas provoca a ilusão de que o prazer não requer a passagem pelos significantes, e, assim, pode ser perene e constante”. A solução química parece aguilhoar a pulsão, pois se ela opera na fonte pulsional, o toxicômano se deparará com o terrível drama da homeostase: o corpo  se acostuma à substância (MELMAN, 1992).

O toxicômano caracteriza-se pela fidelidade ao seu objeto, a qual é denominada fixação e pode ser considerada uma perversão do funcionamento pulsional, pois a característica original da pulsão é que tenha uma acentuada indiferença em relação ao objeto, sendo este eleito de acordo com a facilidade com que promove a satisfação. Por outro lado, a indeterminação originária do objeto da pulsão aponta também para a importância da história subjetiva para traçar as coordenadas do objeto do desejo de cada um, o que é encontrado na história dos sujeitos sob a forma de padrões em suas escolhas objetais (FREUD, 1915/2006; 1920/2006; LAPLANCHE,1989). A variabilidade do objeto na pulsão a diferencia claramente do instinto, do nível biológico, o qual possui um único objeto de satisfação. A extrema plasticidade do objeto na teoria das pulsões se deve ao fato de que os objetos que promovem o escoamento da pulsão são sempre parciais, pois são substitutos do objeto a (COUTINHO JORGE, 2005). O conceito de objeto a designa um vazio, um resto nunca atendido que funda o desejo enquanto incompletude. Por isso também, toda satisfação é parcial e resta sempre uma tensão, que é aquilo que move o sujeito e caracteriza a vida (COUTINHO JORGE, 2005).

Os objetos a primordiais, dentre eles o seio e as fezes, são caracterizados pela sua ausência, pelo fato de que vão embora (COUTINHO JORGE, 2005). Em consonância a esta assertiva a droga consiste num semblante de objeto a para o toxicômano, pois a posse do produto dá a ilusão, conquanto seja efêmera, de completude. Contudo, a repetição do ato toxicomaníaco prova que a salvação da droga é um engodo, pois as sucessivas doses só indicam que algo falta e que a paz procurada através da intoxicação não pode ser encontrada por nenhuma via (ARTEIRO; QUEIROZ, 2011; MARCONI, 2009).

Outra característica que facilita a escolha do objeto pulsional, é sua potência em promover satisfação. Contudo, a pulsão é também capaz de se apegar a um objeto nocivo (SANTIAGO, 2001). É notório que o apego de um adicto a uma droga ilegal pesada o faça correr uma série de riscos e que, ainda assim, ele persevere no uso da substância sem procurar substituí-la por uma droga legalizada, mais acessível (TIBURI; DIAS, 2013). Inclusive, tal dificuldade de obtenção contribui parcialmente para o gozo na toxicomania. A droga também promove a confluência de pulsões, servindo às pulsões de vida e às pulsões de morte. Tal confluência reafirmar o caráter de pharmakon do objeto droga, de ser ao mesmo tempo o remédio e o veneno (SISSA,1999).

Após discorrer sobre os quatro elementos constitutivos da pulsão, abordaremos os três princípios de funcionamento do aparelho psíquico. Da mesma forma, dois dualismos pulsionais também serão abordados para que tenhamos uma compreensão mais acurada da toxicomania.

O primeiro dualismo pulsional marca a dicotomia entre o Eu e as pulsões de autoconservação de um lado e as pulsões sexuais, de outro. Esse dualismo representa os polos do conflito na neurose e se tornará obsoleto com a introdução do conceito de narcisismo, o qual aponta que o Eu é investido libidinalmente. No segundo dualismo pulsional, a pulsão de vida ou Eros é a força de ligação, responsável pela manutenção da vida e pela sexualidade, enquanto a pulsão de morte ou Tânatos representa o desligamento e a ruptura (FREUD,1915/2006;1920/2006).

O princípio do prazer é a primeira modalidade com que se realiza o desejo do inconsciente, seguindo o processo primário que opera na base da fantasia e da alucinação visando ao rebaixamento de tensão ou ganho de prazer o mais rápido possível, sem levar em consideração as relações com o mundo exterior. Por isso, levar a cabo o princípio do prazer em seu estado puro pode incorrer em sério risco para a vida do indivíduo. Este método primário de funcionamento psíquico se relaciona estreitamente com as pulsões sexuais.

No interesse da preservação do indivíduo, o princípio do prazer modifica-se em princípio de realidade, salvaguardando o prazer, ainda que diminuído, para depois. O método secundário de funcionamento opera através da modificação do mundo externo – mediante a ação e o seu ensaio, que é o pensamento – e é consoante com as pulsões do Eu ou de autoconservação. Este cerceamento da pulsão é gerador de mal-estar entre os neuróticos e alguns buscam na narcose uma solução mais imediata para lidar com ele. A narcose opera afrouxando o princípio de realidade, uma vez que incide nas relações entre Eu e mundo externo ao alterar a percepção, do que resulta o desaparecimento do desprazer e a geração de prazer. O toxicômano dominado pela fissura vai contra todo e qualquer bom-senso para obter a droga, agindo de forma impulsiva, subjugado pelo excesso de tensão e pelo princípio do prazer que exige descarga: eis o caráter impulsivo e irrefreável do ato toxicomaníaco (FREUD, 1911/2006; 1915/2006; 1920/2006; 1923/2006; 1930/2006; VALAS, 2001).

No caso da toxicomania, a lógica de apoio se reverte: o objeto investido pela libido se torna mais importante que as necessidades fisiológicas ordinárias. A droga é um objeto de amor, afinal de contas, que se transmutou em objeto  de necessidade. Há um ganho aqui, a saber, a obturação do desejo transformado em necessidade, hiância para a qual há um objeto feito sob medida (PIMENTA; CREMASCO; LESOURD, 2011; VALAS, 2001).

A PULSÃO DE MORTE E O ATO NA TOXICOMANIA

 

A partir do estudo dos sonhos das neuroses traumáticas, os quais não veiculam uma realização de desejo disfarçada e sim um trauma, delineiam-se os limites obscuros que transpassam o princípio do prazer. Freud retoma então o princípio do nirvana, formulado por Barbara Low³, para traduzir esta outra força pulsional que ele começa a distinguir, a qual é agente de ruptura e de destruição. Como sintetiza Lodi (2012, p. 296) “o que a vontade de destruição designa é a vontade de ir além, de recomeçar com novos custos, vontade de outra coisa”.

A pulsão de morte é uma energia que visa a algo diferente ao excesso de tensão da vida, combatendo este acúmulo libidinal que caracteriza a vida em sociedade, sentido, no mínimo, como perigo, podendo, inclusive, ser equivalente a um trauma. O princípio do nirvana leva ao extremo o programa do princípio do prazer, indo na direção de uma quietude total, análoga à morte. A realização da pulsão de morte, pulando a barreira do princípio do prazer (e o muro da linguagem), se dá por uma via mais curta, de caráter destrutivo. De um lado estariam as forças de Eros, que englobam o amor, o desejo, a sublimação e a sexualidade, e, do outro, Tânatos, enquanto vontade de destruição. As relações entre princípio do prazer e princípio do nirvana não são unívocas, sendo ora de contraposição ora de colaboração, concorrendo para o mesmo fim de combater o excesso pulsional, sentido como perigo.

Na toxicomania, o objeto droga, enquanto puro imaginário – pois a crença do sujeito de que este objeto lhe saciará é constantemente posta à prova pela ingestão de quantidades progressivamente maiores – parece ser o único capaz de baixar as tensões sentidas como insuportáveis, exemplo no qual o princípio do prazer e do nirvana convergem para o mesmo fim, promovendo a temporária completude da morte. O modelo paradigmático é o do pico: o sujeito desfalece e num estado que muito se assemelha ao êxtase, morre para o mundo exterior, podendo permanecer fitando os pés por horas. Já em uma toxicomania grave e na overdose, a decadência do corpo prova a dominância da pulsão de morte. O uso de drogas pode ainda, mesmo para o toxicômano, propiciar um estado de bem-estar resultante do fortalecimento do narcisismo e do enfraquecimento de um supereu sádico que pulsa segundo as ordens de Tânatos (DUFOUR, 2004; FREUD, 1920; 1923; 1930;

MARCONI, 2009; SANTOS& COSTA-ROSA, 2007).

Marconi (2009) destaca que o ato toxicomaníaco não é uma compulsão à repetição. É evidente que a pulsão de morte participa proeminentemente nas toxicomanias, contudo não configurando uma compulsão à repetição no sentido que Freud deu a mesma. A compulsão à repetição é conceituada como uma tentativa de dar outro significado ao trauma, de acordo com o deslizamento metonímico do desejo, ligando a um significante o seu boom pulsional. Há, onipresente, o impulso a certo estado anterior, que foi aquele do momento mítico de encontro com a droga. Tal encontro calou as angústias neuróticas, no caso de uns; já para outros, o vazio e a tristeza melancólicos. Para ambos ensinou a inaudita doçura de viver (SISSA,1999).

A significação mítica do encontro inicial com a droga ocorre por reverberar a falta estrutural do objeto a. A busca de retornar a este momento se torna o escopo da vida do toxicômano. O que ele não sabe é que para sua busca, travestida de busca pela droga, não há resposta pronta, nem objeto possível. Ele crê, de modo ambivalente, na droga como a verdadeira causa de suas atribulações e, ao mesmo tempo, como um remédio para seu mal-estar estrutural. Em decorrência do tamponamento das questões estruturais, não houve, portanto, o enfrentamento com o traumático, do qual poderia advir uma ressignificação, mas a negação da percepção desse desprazer (FREUD, 1920; SANTOS; COSTA-ROSA, 2007; SISSA,1999).

O uso repetido e ininterrupto e até mesmo a experiência da reincidência em uma toxicomania grave, na qual o sujeito, estando não somente sob o jugo da  pulsão de morte, mas sob risco de que esta pulsão atinja seu alvo, também não configuram uma compulsão à repetição, embora presentifiquem uma pronunciada atuação da pulsão de morte. A reincidência é o exemplo mais claro da repetição do ato toxicomaníaco. A reincidência consiste no retorno ao uso depois de um hiato, baseado na escolha do sujeito, motivado pelos excessos que se ligam ao uso da droga e que o sujeito não conseguiu suportar. Este desejo de parar, de barrar este excesso com todas as suas consequências pode ser entendida como uma reanimação da pulsão de vida. Contudo, a pulsão de vida que faz o sujeito retornar à vida ordinária, também o faz defrontar-se com as frustrações e os acossamentos pulsionais decorrentes. É quando tem lugar a “normalização” na vida sexual e no trabalho, conforme as ordens do supereu, que os conflitos psíquicos, antes anestesiados, reaparecem. Na reincidência, a pulsão de morte retoma as rédeas do sujeito (MELMAN,2004; SANTOS; COSTA-ROSA, 2007).

Em contraposição à metonímia a que se dirige a compulsão à repetição, a cena toxicomaníaca é marcada por um enrijecimento representacional em que o objeto droga mantém seu estatuto simultâneo de bem e mal supremo. Não ocorre elaboração e a cena toxicomaníaca se repete, ritualisticamente, em seus menores detalhes. O principal fator que estanca o deslizamento significante e uma possível elaboração nesta montagem psíquica é o afastamento do gozo fálico, mediado pela linguagem e pela sua mola mestra, o significante, e uma circunscrição ao gozo autoerótico (DUFOUR, 2004; MARCONI, 2009).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Neste artigo, a toxicomania foi definida em relação à posição subjetiva de escravidão que o sujeito assume em relação ao objeto droga. Buscamos destacar o pioneirismo de Freud em explicar a toxicomania como função, principalmente, das idiossincrasias do sujeito. A droga é entendida como pharmakon, sendo seu caráter de remédio ou veneno tributário do uso que dela é feito. A toxicomania foi relacionada à satisfação autoerótica, à fixação objetal, à reversão da lógica de apoio e à agência da pulsão de morte. Em relação ao quadro da toxicomania, a droga foi relacionada ao objeto a, sendo que apontamos a capacidade desse objeto de fazer o princípio do prazer e do nirvana confluírem.

A partir do estudo realizado, é possível afirmar que a toxicomania configura um funcionamento em que o pulsional se manifesta de forma selvagem, uma vez que as vinculações com a representação e o simbólico estão enfraquecidas e predominam os automatismos e repetições decorrentes do caráter conservador da pulsão, como se torna patente no fenômeno da reincidência. Outra asserção decorrente deste estudo é que na toxicomania, sujeito e objeto de satisfação formam um amálgama, à maneira de um instinto e o ato de drogar-se é percebido pelo toxicômano como uma real necessidade.

Um rumo interessante para futuras pesquisas é a busca de melhor compreender o caráter da repetição na toxicomania. As sofridas reincidências testemunham a dominância da pulsão de morte e são as mais conhecidas queixas em relação à adicção. As “recaídas” trazem não só o julgamento moral em relação ao uso da droga; mais perniciosamente apontam a fragilidade do Eu em relação à força das pulsões e a dificuldade do sujeito em lidar com a vida no registro do desejo e de suas inerentes frustrações.

Fonte

GÊNERO E PSICANÁLISE: ALÉM DA DUALIDADE “MULHER” X “HOMEM”

Autor: Ligia Maria Durski

Resumo: A dificuldade em abordar a complexidade da sexualidade humana permite construções culturais que tendem a violar e/ou não contemplar tal complexidade, resultando em relações sociais injustas e pautadas em preconceitos e desinformação. Este artigo realiza um exercício de exposição didática acerca
de tal tema – enviesado por uma perspectiva psicanalítica e tendo Freud como autor de base. Para tal, partimos das seguintes perguntas norteadoras: nosso sexo anatômico define de fato quem somos e/ou quem nos tornaremos? Os seres humanos dividem-se exclusiva e hegemonicamente nesses grandes grupos nomeados “masculino” e “feminino”? A nossa sociedade contempla de forma justa a complexidade da sexualidade humana?

Introdução
Este artigo pretende apresentar uma reflexão sobre a complexidade da sexualidade humana e sobre o quanto estamos distantes de respeitar um fato básico: a interpretação binária dos corpos desconsidera a forma singular e não necessariamente fixa como cada indivíduo consegue organizar sua identidade emtermos de gênero e dos objetos de amor por ele/a elegidos/as e elegíveis.

Para uma apresentação introdutória e didática desta problemática, este trabalho foi organizado a partir de quatro eixos norteadores: 1º. A distância entre
formulações biológicas de definição do sexo anatômico humano e a construção psíquica em termos de identidade de gênero; 2º. A correlação comumente
difundida entre identidade de gênero e escolha objetal; 3º. A consequente relatividade na definição dos grandes grupos nomeados “masculino” e “feminino”,
e; 4º. Alguns ditames civilizatórios e a possibilidade de revisá-los na busca de relações mais justas entre os seres humanos. Também, como conclusão, realizou-se um exercício de previsão e suposição dedutiva sobre efeitos prováveis na “moral sexual” civilizada, efeitos decorrentes da busca pela igualdade de direitos e luta contra misoginia.

O intuito foi esclarecer ao/à leitor/a que a concepção biológica de diferenciação anatômica no que tange aos ditos “caracteres sexuais” não justifica o que é
culturalmente definido sobre o que é ser homem e o que é ser mulher. Nossos horizontes são passíveis de ampliação e podemos compreender e rever o modo
pelo qual, habitualmente, um único tipo de comportamento sexual e de relação de gênero é considerado como o justo e válido para todos – o heterossexual,
monogâmico e com fins reprodutivos.

Objetivos
Nosso objetivo geral com este trabalho é fomentar a discussão sobre como as muitas construções pautadas na ideia de diferenciação “mulher X homem”
estimulam sofrimentos que, além de arbitrários, não consideram a complexidade da sexualidade humana. Discutir tal tema auxilia a possibilitar a ampliação de
perspectivas que evitem injustiças. Assim, a partir dos seguintes objetivos específicos, pretendemos nos aproximar deste objetivo geral:

– Realizar um breve resgate sobre o fato de não nascermos com as concepções sobre quem somos e sobre o que é ser homem e o que é ser mulher.
Justificaremos, assim, que tais concepções são criações e plenamente passíveis de reconsiderações;

– Explicar que não existe necessariamente uma determinação direta entre nossa anatomia e nossa construção subjetiva acerca de uma identidade de gênero;

– Explicar que, também, não existe necessariamente uma correlação direta entre nossa identidade de gênero e nossa escolha objetal. Que esta última não
está, pois, necessariamente pautada numa lógica heteronormativa, monogâmica e/ou de finalidade reprodutiva;

– Asseverar que as construções que delimitam o que é ser mulher e o que é ser homem, num sentido subjetivo, necessariamente estarão equivocadas em maior ou menor grau e que, com isso, graves injustiças podem ser cometidas ao criarmos concepções estanques sobre as ideias de “feminino” e “masculino” e sobre um modelo único de manifestação da sexualidade, e;

– Questionar se é possível ou não a ampliação e efetivação de movimentos sociais, políticos e culturais que respeitem e protejam a complexidade e multiplicidade da sexualidade humana.

Discussão
Para iniciarmos esta discussão, advertimos o/a leitor/a que a base de nosso posicionamento condiz com a perspectiva psicanalítica acerca da sexualidade e se
confirma a partir da experiência clínica e acadêmica na área. Pois bem, dois pontos basais acerca do funcionamento psíquico humano devem ser considerados antes de abordar mais detidamente o tema da dualidade mulher/ homem, são eles: a) o fato de partirmos de um estado psíquico de indiferenciação, por assim dizer e, b) o fato de não nascermos com um Eu previamente formado.
.
a) Partimos de um estado de indiferenciação:
Quando nascemos, já nascemos sabendo o que é claro e escuro? Ou o que é noite e dia? Já nascemos falando, sabendo nosso nome, diferenciando o que é
quente daquilo que é frio? Já nascemos sabendo o que é ser homem e o que é ser mulher? Claro que não. Essas diferentes concepções são fruto de construções
interpretativas acerca daquilo que capturamos pela via perceptiva e, como tal, podem ser revistas e/ou reformuladas, abrindo espaço para diferentes modos de
subjetivação.
A lógica dualista, de diferenciações entre supostos opostos, nos serve para nos organizarmos no mundo, para saber quando é noite e quando é dia, se está quente
ou se está frio, se algo está molhado ou seco, etc. São formalizações que nos auxiliam a viver no mundo. Essa diferenciação de opostos é uma lógica adquirida por meio do crescimento, pela inserção na cultura e pela matriz de pensamento a qual dado sujeito se localiza no espaço-tempo. No entanto, nascemos em meio à
experiência de indiferenciação. É somente aos poucos que o humano estabelece âncoras de diferenciação que o auxilia a julgar a realidade.

Neste estado de indiferenciação, assimilamos o que nos dizem sobre quem somos e sobre o que sentimos. Essas falas tendem a ser, facilmente,
incorporadas e são aparentemente inquestionáveis. Por mais paradoxal que possa ser, em última instância, nem mesmo o nosso nome nos pertence, já
que ele nos foi dado por um outro. Por essa razão, nem sempre é possível considerar autêntico aquilo que nosdisseram sobre quem somos ou sobre o que sentimos. Se de fato o humano inicia sua jornada na vida a partir de um estado de indiferenciação, isso determinaque nenhuma fala ou representação será efetiva – há um hiato no sentimento de ser e na constituição da identidade. É como se este estado psíquico inicial deindiferenciação operasse, em maior ou menor grau, uma torção no sentimento de “ser quem se é”, pois inevitavelmente, também em maior ou menor grau, a construção identitária, por se tratar de uma construção, é passível de modificações.

b) Não há um Eu a priori:
Não discutiremos aqui os pormenores da formação do Eu , apenas indicaremos algumas consequências do fato de o Eu não ser uma “entidade” que nasce conosco, algo inato. Nosso Eu é uma construção e depende de forças constitucionais, relacionais e culturais para ser formado. Sua formação não é uma garantia e sua desconstrução e reconstrução é uma possibilidade, que dependerá também de diversos fatores.

Carregamos no Eu toda a coleção de memórias e traços que utilizamos para definir aquilo que acreditamos que somos e que foi assimilado sobre o
que nos disseram que seríamos. Na constituição e formação do Eu comparece nossa definição de gênero e as diretrizes de nossas escolhas de objeto sexual.
No entanto, nem sempre as determinações socioculturais condizem com nossos afetos, sentimentos e modos de subjetivação. Nem sempre aquilo que sentimos como fazendo parte de nosso ser está em sintonia com o que nossa família, escola, referenciais midiáticos e a sociedade em geral esperam e demandam de nós.
Estabelecem-se, assim, facilmente, intensos conflitos internos e externos que despontam angústias de não-pertencimento, inexistência e indignidade da vida.

Nessa perspectiva, a definição de gênero que será constituída e que fará parte da formação de nosso Eu não estará garantida, pois pode, até mesmo, não vir a ser
estabelecida e, se construída, poderá vir a ser alterada ou perdida. É preciso, neste sentido, que constantemente nos perguntemos se o que está estipulado como padrão de conduta e de relação entre humanos condiz e respeita, de fato, a diversidade humana e essa abertura ao devir. Sequencialmente, serão enfocados alguns eixos norteadores para aprofundar a argumentação:

1º. Eixo: sexo biológico e definição de gênero
Há muito se sabe que um bebê humano identificado como portador do sexo biológico dito masculino não necessariamente se identificará e se sentirá como
pertencente a tal gênero. Há inúmeras pessoas cujas vidas são assoladas pelo fato de não sentirem que o sexo biológico que lhes foi designado no nascimento
lhes pertence e que afirmam que este não condiz com quem elas sentem que são. Sabemos, além disso, por exemplo, que um indivíduo do sexo biológico dito
feminino, que construiu uma identidade de gênero condizente à sua anatomia, pode vir a exercer papéis supostamente masculinos.

Ou seja, não é possível esperar que uma pessoa de determinado sexo biológico comporte-se como acreditamos que deva ser o comportamento esperado de tal
sexo. Torna-se excessiva e patologicamente arbitrária e impositiva uma sociedade que estabelece e cobra padrões rígidos de conduta baseados em sexo biológico,
pois desconsidera a complexidade da constituição da sexualidade humana.

2º. Eixo: definição de gênero e escolha objetal
Antes de discorrermos sobre este eixo, façamos algumas ressalvas sobre a palavra ‘escolha’. Embora tal palavra possa induzir a erros interpretativos, a
utilizaremos indicando ao/à leitor/a de que tal ‘escolha’ não necessariamente é determinada conscientemente. A força dos determinantes inconscientes é
pungente na definição dos objetos sexuais de dado indivíduo. Ou seja, trata-se de uma escolha que também, dependendo do caso, pode significar uma falta de
escolha, uma impossibilidade de escolha, a única escolha possível, uma escolha paliativa, uma escolha temporária, etc. Aqui, vale trazermos a seguinte citação de
McDougall (1997, p. 193):

(…) pouca gente tem a impressão de “escolher” ser homossexual numa
sociedade predominantemente heterossexual ou, por esta razão, de “escolher”
a heterossexualidade a fim de adaptar-se à maioria social. No que se refere às
invenções desviantes heterossexuais, homossexuais e auto-eróticas, estas
chamadas escolhas representam as melhores soluções possíveis que a criança do
passado foi capaz de encontrar diante das comunicações parentais contraditórias
a propósito da identidade de gênero, da masculinidade, da feminilidade e do papel
sexual. Essas soluções são vivenciadas pela criança ou pelo adolescente como
revelações de sua forma de expressão sexual, juntamente com o reconhecimento,
às vezes doloroso, de que essa sexualidade é algo diferente dos outros. Certamente
ninguém se apercebe de ter escolhido isso.

Feita tal ressalva, podemos considerar que a tendência ocidental moderna foi o estabelecimento de uma concepção heteronormativa com fins reprodutivos
das relações amorosas e sexuais entre os seres humanos. Concepção esta que estimula conclusões tais como: todo casal homossexual tem um integrante ativo
e um passivo, um integrante que é a mulher e outro que é o homem do casal, ou então algo como: nenhuma mulher masculina consegue casar com um homem, a
não ser que este homem seja “afeminado”, etc. Sobre esta tendência ao estabelecimento de um modelo único de expressão da sexualidade, Costa (1996, p. 75) é contundente:

O sexo da divisão bipolar é simplesmente o que vai justificar e impor diferenças
morais aos comportamentos femininos e masculinos, de acordo com as exigências
da sociedade burguesa, capitalista, individualista, nacionalista, imperialista e
colonialista implantada nos países europeus. A reinterpretação dos corpos humanos
conforme o mito da bi-sexualidade original foi, antes de tudo, uma solução exigida
pelos problemas político ideológicos, postos pela revolução burguesa.

A questão que queremos levantar neste eixo é simples: não há conexão direta entre definição de gênero e escolha objetal. Homens, biológica e psiquicamente
masculinos, por assim dizer, podem se sentir atraídos por homens biológica e psiquicamente masculinos, por mulheres biológica e psiquicamente femininas,
por homens biológica e psiquicamente femininos, etc. Além disso e aqui não entraremos em tal questão, mas vale a lembrança, existem casos nos quais a
atração sexual pode se dar não pelo sexo biológico de tal e qual pessoa, mas por uma parte de seu corpo, entre outras modalidades de objeto sexual.
Sendo assim e nos restringindo apenas a pessoas que sentem atração sexual por pessoas, podemos começar a visualizar a abrangência combinatória que a
sexualidade humana nos oferece se nos referirmos exclusivamente às questões de gênero e de escolha objetal. É, contudo, importante lembrar o/a leitor/a de
que: 1) a própria definição de gênero pode seguir uma tendência geral, mas variar de acordo com as circunstancias, momentos e experiências de vida de dada pessoa; 2) não existe uma garantia de exclusividade de objeto sexual – um individuo pode sentir-se atraído por diferentes pessoas de diferentes formações
anatômicas e diferentes identidades de gênero; 3) até mesmo a monogamia é discutível, pois sabemos que existem grupos de mais de dois indivíduos que se relacionam amorosa e sexualmente entre si e que conseguiram harmonizar os desafios de tal constituição.

3º. Eixo: diretrizes de delimitação de ‘masculino’ e ‘feminino’
Justamente, por não nascermos com uma concepção à priori sobre quem somos, ao definirmos critérios sobre o que é ser homem e o que é ser mulher,
estamos entrando no campo das conjeturas. Deste modo, inevitavelmente, estamos realizando uma construção e, como tal, passível de revisão. Em outras
palavras, uma tentativa de delimitarmos aqui as características dos grupos ‘masculino’ e ‘feminino’, em termos psíquicos, implicaria um problema insolúvel.
Nossa sociedade burguesa, capitalista, individualista, nacionalista, imperialista e colonialista, ao tender para a criação de dualidades normativas e, em sua maioria,
opositivas, acerca do que é ser homem e o que é ser mulher, tais como: azul é para homem, rosa é para mulher; mulher brinca com boneca, homem com carrinho,
homens são fortes e mulheres são frágeis, homens são racionais e mulheres sentimentais, etc. obteve como resultado a tendência ao desencadeamento de
sofrimentos advindos de discriminação e de desigualdades de direitos.
Contudo, devemos nos perguntar: precisamos mesmo, como sociedade, definir uma marcação que diferencia homens e mulheres a partir de dualidades
opositivas que levam facilmente ao estabelecimento de juízos de valor? Não estamos assim estimulando sofrimentos evitáveis? A quais poderes e discursos
esta dualidade serve? Quais poderes e discursos essa dualidade arbitrária sustenta? Ao que nos parece, a influência da moral sexual existente na sociedade, que
tem por base pressupostos heteronormativos, monogâmicos e de finalidade reprodutiva, dificulta a construção de uma concepção mais realista sobre da
sexualidade (ou sexualidades) humana. Neste sentido, Freud nos faz uma ressalva acerca da questão da bissexualidade, para além de nossa tendência a uma visão de que necessariamente o sexo biológico de um indivíduo definiria uma masculinidade ou feminilidade “pura”.
[Nota de rodapé acrescentada em 1915] É indispensável deixar claro que conceitos de “masculino” e “feminino”, cujo conteúdo parece tão inambíguo à opinião
corriqueira, figuram entre os mais confusos da ciência e se decompõe em pelo menos três sentidos. Ora se empregam “masculino” e “feminino” no sentido de
atividade e passividade, ora no sentido biológico, ora ainda no sentido sociológico.

O primeiro desses três sentidos é o essencial, assim como o mais utilizável para a psicanálise. (…) O segundo sentido de “masculino” e “feminino”, o biológico,
é o que admite a definição mais clara. Aqui, masculino e feminino caracterizamse pela presença de espermatozoides ou óvulos, respectivamente, e pelas funções
decorrentes deles.(…) O terceiro sentido, o sociológico, extrai seu conteúdo da observação dos indivíduos masculinos e femininos existentes na realidade.
Essa observação mostra que, no que concerne ao ser humano, a masculinidade ou a feminilidade puras não são encontradas nem no sentido psicológico nem
no biológico. Cada pessoa exibe, ao contrário, uma mescla de seus caracteres biológicos com os traços biológicos do sexo oposto (…). (FREUD, 1905, p.97).
E, ainda neste mesmo sentido, temos a seguinte afirmação freudiana:

O homem é um organismo animal com (como outros) uma disposição bissexual
inequívoca. (…) O sexo constitui um fator biológico que, embora de extraordinária
importância na vida mental, é difícil de apreender psicologicamente. (…) Seja como
for, se considerarmos verdadeiro o fato de que todo indivíduo busca satisfazer tanto
desejos masculinos quanto femininos em sua vida sexual, ficamos preparados para
a possibilidade de que essas [dois conjuntos de] exigências não sejam satisfeitos
pelo mesmo objeto e que interfiram um com o outro. (FREUD, 1930, p.127).

A imposição da heterossexualidade como lei de “normalidade” é diretamente confrontada ao acompanharmos as questões que estas duas últimas citações expõem.
Resta questionar: é ou não possível que essa “lei da heterossexualidade”, essa “lei da monogamia” e essa “lei da reprodução” se desvinculem das relações humanas?

4º. Eixo: a complexidade da sexualidade humana e os determinantes civilizatórios
Diante da reflexão sobre os três eixos anteriores, uma pergunta pode ser feita: não considerar a multiplicidade de possibilidades de desfecho humano acerca dos
determinantes de sua definição de gênero e escolha objetal não impossibilitaria ao ser humano o seu direito à busca por uma vida digna e criativamente vivida?
No texto “O Mal-Estar na Civilização” (1930), Freud circunscreve três fontes fundamentais do sofrimento humano: o nosso próprio corpo, que envelhecerá e adoecerá; o mundo externo, que pode voltar-se contra nós e; os nossos relacionamentos interpessoais.

A terceira fonte merece aqui uma atenção especial, pois, ‘o sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro’, visto que esta é uma fonte de sofrimento dada pela ‘inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade’. (FREUD, 1930, p.95- 105). Mas como podem os regulamentos estabelecidos por nós mesmos ser fonte de sofrimento? E por que criamos então estes regulamentos?

Para Freud, a civilização foi, por nós, criada com o objetivo especial de alcançarmos uma maior proteção contra as forças natureza, para não ficamos
sujeitos à vontade arbitrária dos indivíduos e para regular as relações entre os
homens. A continuidade da civilização impõe então leis e, assim:

A primeira exigência da civilização, portanto, é a da justiça, ou seja, a garantia de
que uma lei, uma vez criada, não será violada em favor de um indivíduo. (…) O
resultado final seria um estatuto legal para o qual todos – exceto os incapazes de
ingressar numa comunidade – contribuíram com um sacrifício de seus instintos,
e que não deixa ninguém – novamente com a mesma exceção – à mercê da força
bruta. (FREUD, 1930, p.116).

Em resumo, segundo esta perspectiva de Freud, podemos asseverar que a civilização estipula leis reguladoras, procurando ter como critério ideal para tais
a justiça e os direitos iguais entre os humanos, protegendo-os da força bruta. Mas a busca por relações mais justas e a restrição aos instintos de forma alguma
se mostra um empreendimento fácil de realizar-se e, muito menos, é fácil encontrarmos a “justa medida” entre nossas exigências instintuais, a possibilidade de manifestação de nossa singularidade e as leis civilizatórias.

Diante do exposto, na especificidade deste trabalho, é de grande interesse discutir os fatores que levaram nossa civilização a estipular um único modelo de
relação sexual, o heteronormativo monogâmico com fins reprodutivos. Sobre isso: Quanto ao indivíduo sexualmente maduro, a escolha de um objeto restringe-se ao sexo oposto, estando as satisfações extragenitais, em sua maioria, proibidas como perversões. A exigência, demonstrada nessas proibições, de que haja um tipo único de vida sexual para todos, não leva em consideração as dessemelhanças, inatas ou adquiridas, na constituição sexual dos seres humanos; cerceia, em um bom número deles, o gozo sexual, tornando-se assim fonte grave de injustiça.

O resultado de tais medidas restritivas poderia ser que, nas pessoas normais – que não se acham impedidas por sua constituição -, a totalidade dos seus interesses sexuais fluísse, sem perdas, para os canais que são deixados abertos. No entanto, o próprio amor genital heterossexual, que permaneceu isento de proscrição, é restringido por outras limitações, apresentadas sob a forma da insistência na legitimidade e na monogamia. A civilização atual deixa claro que só permite relacionamentos sexuais na base de um vínculo único e indissolúvel entre um só homem e uma só mulher,e que não é de seu agrado a sexualidade como fonte de prazer por si própria, só se achando preparada para tolerá-la porque, até o presente, para ela não existe substituto como meio de propagação da raça humana. (FREUD, 1930, p.125).

Ora, torna-se mais claro um hiato entre os ditames civilizatórios acerca das manifestações sexuais ditas normais e a complexidade da constituição sexual humana. Mas, afinal, não é a justiça um dos critérios imprescindíveis da civilização? Neste sentido, se ‘grande parte das lutas da humanidade centralizamse em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente – isto é, uma acomodação que traga felicidade – entre essa reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais’. (FREUD, 1930, p.116), é preciso que consideremos a possibilidade de mudança de certas leis civilizatórias e ditames normativos que podem ser fonte de sofrimentos desnecessários. A citação abaixo reafirma a possibilidade de tal iniciativa:

O programa de tornar-se feliz, que o princípio do prazer nos impõe, não pode ser realizado; contudo, não devemos – na verdade, não podemos – abandonar nossos esforços de aproximá-lo da consecução, de uma maneira ou de outra. (…)

A felicidade no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo. Não existe uma regra de ouro
que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim
de dirigir sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo, de até onde é levado para tornar-se independente dele,
e, finalmente, de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de adaptá-lo a seus desejos. (FREUD, 1930, p.103).

Aqui, exatamente no sentido de alterar o mundo externo, fomentar a discussão sobre a sexualidade humana implica a ampliação de um espaço de debate que vise ganhos civilizatórios, tais como, a luta contra o preconceito e a misoginia, a valorização da mulher, a reformulação de modelos estanques de família, entre
outros. Tal medida fortalece, enfim, a busca de relações mais justas entre os seres humanos e que contemplem de maneira mais abrangente a multiplicidade humana.

Conclusões
Retomemos, pois, as principais perguntas aqui expostas: aquilo que é descrito como nosso sexo anatômico define de fato quem somos e/ou quem nos tornaremos? Os seres humanos dividem-se exclusiva e hegemonicamente nesses grandes grupos nomeados “masculino” e “feminino”? A nossa sociedade contempla de forma justa a complexidade da sexualidade humana?

A partir da discussão realizada, é possível considerar que não temos garantias irrevogáveis quanto ao fato de que nascer com dada constituição anatômica
significa sentir-se e/ou tornar-se de determinado “sexo”. Também, os fatores que organizam nossa identidade de gênero dependem extensivamente das
construções psíquicas que conseguimos realizar em meio às pessoas, relações, convergências e divergências, circunstancias e desfechos que vivenciamos em
nossas vidas e, de modo especial, em nossa infância. Além disso, ao longo da vida de um mesmo indivíduo, em termos subjetivos, a própria divisão identitária ‘feminino’ e ‘masculino’ é cambiável. Em maior ou menor grau nos encontramos, momento a momento de nossas vidas, exercendo comportamentos referentes a um ou a outro campo.

Podemos até traçar uma linha geral de posição subjetiva de uma pessoa para caracterizá-la como pertencente ao grupo nomeado ‘masculino’ ou ao grupo nomeado ‘feminino’, contudo, o estabelecimento de um padrão e modelo estanques neste contexto implica inevitavelmente numa norma moral promotora de sofrimento, uma vez que desconsidera que o campo da definição de gênero é potencialmente flutuante.

Desta forma, se ponderarmos que ainda hoje estabelecemos um único modelo desejável de expressão da sexualidade – o modelo heteronormativo monogâmico
com fins reprodutivos – então, certamente, temos ainda um longo caminho a percorrer no sentido de uma organização mais justa que contemple e respeite a
diversidade humana. Muito já foi questionado sobre esse modelo iníquo, importantes passos foram dados com a liberação do uso de anticoncepcionais, com a ampliação de nossa possibilidade de acesso à informação, com o aumento (relativo e notavelmente frágil) de propostas e programas político-sociais de combate à misoginia, homofobia e transfobia, com a criação e revisão de leis que garantam maior dignidade e igualdade de direitos, etc. Contudo, infelizmente, o número de crimes resultantes de homofobia, transfobia, racismo, misoginia, etc. continua alarmante.

Crimes de ódio, preconceito, bullying, sofrimento, intolerância, desrespeito, leis desiguais, etc. são apenas algumas consequências da ignorância e intolerância
quanto à(s) diferença(s) e à multiplicidade humana. Se, por um lado, podemos ser pessimistas pelo fato de o caminho para avançarmos nesse tema ser longo, uma
vez que incide no cerne de questões ainda polêmicas. Por outro lado, podemos ser otimistas, pois, embora árduo, esse caminho é “trilhável” e nossas ações
presentes podem (e devem) incluir a defesa da diferença e o respeito, tolerância e convívio pacífico na multiplicidade.

Neste sentido, é no âmbito das políticas públicas que programas e movimentos de quebra de preconceitos e ampliação de horizontes podem se concretizar, de forma a abranger fatias significativas da população. É premente o estabelecimento de ações que visem promover informação e conhecimento às famílias, crianças, idosos, adultos e adolescentes sobre a complexidade de sua própria sexualidade.

É preciso repetir: diante das diferentes formas de vivenciarmos nossa sexualidade, muitos grupos sociais, partidos políticos, discursos religiosos, teorias
pedagógicas, psicológicas e filosóficas, podem ainda tender a defender e almejar manter e/ou impor um único modelo sexual para todos. Contudo, o fato é que
nossa multiplicidade é algo inequívoco. Não podemos mais fechar os olhos para tamanha obviedade e devemos nos perguntar agora como conquistar o convívio
respeitoso entre as diferenças, invés de buscarmos um funcionamento moral, político e legislativo tirânico que não nos garanta igualdade de direitos e que não
respeite nossa complexidade.

Leis, padrões de conduta, visões de mundo e ditames morais que subtendam estigmas devem ser revistos, pois, ao que tudo indica, é justamente a
tendência ao estabelecimento de estigmas que estimula ações intrinsecamente preconceituosas, quer seja no campo da política, ciência, religião ou sociedade4.
Se, infelizmente, o tema da sexualidade ainda é tabu atualmente e se está claro que essa luta por uma humanidade mais consciente e tolerante não será ausente
de tensões, também, apesar disso, já podemos observar efeitos da ampliação do acesso à informação – a maior reivindicação a formas de vida mais autênticas e condizentes com o que sentimos é um deles.

A experiência da clínica psicológica, inclusive, revela exatamente o que as palavras de McDougall (1997) resumem: Qualquer que seja a modalidade sexual, os próprios analisandos raramente desejam perder estas soluções eróticas. Uma certa quantidade de pacientes, sob impacto da aventura analítica, desenvolvem relacionamentos eróticos e íntimos mais ricos. Entretanto, se esse feliz resultado não ocorrer, perder o único sistema de sobrevivência sexual de que dispõe seria o equivalente da castração [real]. E, mais do que isso, em muitos casos, esses roteiros eróticos intrincados e inelutáveis servem não apenas para salvaguardar o sentimento de identidade sexual que acompanha o prazer sexual, porém frequentemente revelam-se como técnicas de sobrevivência psíquica que são exigidas também para preservar o sentimento de identidade subjetiva. (MCDOUGALL, 1997, p.188, o grifo é nosso).

Ou seja, dignidade, educação e acesso à informação são, portanto, algumas das chaves que podem nos aproximar de um mundo mais justo e digno.
Também, como reflexão pertencente à conclusão deste artigo, é possível prever implicações e impactos hipotéticos para o futuro das relações entre humanos se a complexidade aqui apontada galgar maior consideração e respeito em nossas relações e legislação. Se seguirmos o fluxo crescente de uma maior garantia de igualdade de direitos, revisão de estigmas e ampliação de nosso conhecimento sobre a complexidade de nossa sexualidade, podemos supor revoluções nos mais diversos campos e, em especial, no que se refere à modelos de relação sexual e amorosa, e modelos de família.

Com relação aos modelos de relação sexual e amorosa, é plausível supor um importante tópico de discussão previsto para o futuro especialmente acerca
da monogamia. Ao que tudo indica e de acordo com a capacidade civilizatória de considerar a multiplicidade sexual humana, a lei da monogamia, que rege fundamentalmente nossas relações amorosas e sexuais, possivelmente passará por questionamentos. Serão, talvez, os “contratos subjetivos” estabelecidos entre cada par ou grupo amoroso sobre os limites e as possibilidades de tal relação que regerão os novos modelos de relação e não mais um único padrão externamente desejável.

Além disso, com a efetiva ruptura do modelo de sexualidade heteronormativo observada global e hegemonicamente, já são inúmeros os países que aderiram ao reconhecimento social e legal da união entre pessoas do mesmo sexo, fato que reafirma tal ruptura. Tudo isso leva a crer que a busca humana por mais respeito, dignidade e convivência pacífica somente se intensificará, embora, infelizmente, ainda muito sofrimento seja motivado por intolerância e ódio a diferentes padrões de conduta e de relacionamento sexual e amoroso.

Consequentemente, os modelos de família também tendem a apresentar mudanças. A diferença que se prevê é que a amplitude será ainda maior do que o fato da sociedade “admitir” e garantir os direitos civis a famílias homossexuais, famílias de pais separados, famílias adotivas, etc. A sociedade será possivelmente
convocada, também, a “admitir” um universo ainda mais amplo de possibilidades de união sexual e afetiva, incluindo-se aí, especialmente, famílias não monogâmicas.

Num futuro, talvez remoto, dada a atual conjuntura política – tendo em vista a crescente força do fundamentalismo religioso, do conservadorismo e do fascismo, em especial nas áreas da política e da educação -, vislumbra-se um viver humano no qual as bases que regulam as relações possam se aproximar
mais de um ideal de respeito mútuo, igualdade de direitos e maior e melhor contemplação de nossa complexidade e multiplicidade. Que a onda conservadora
que assola o Brasil, especialmente pós-2016, não atrase ainda mais o processo de emancipação e libertação dos grilhões subjetivos, morais, políticos e legislativos
que nos impedem o devir e a defesa da diferença.

 

Fonte do Artigo